16 Novembro 2009

Meninos da Ilha


Foto: BCN

13 Novembro 2009

Engenhocas





Fotos: BCN

O velho ditado diz que "Morre o homem, a obra fica".
Sou um apreciador desses pequenos "empreendimentos" da Ilha, coisas simples que nasceram das mãos de anónimos sem "qualificação" nehuma. Trabalhavam tão-somente (?) para garantir um matar-d'injú diário.

As imagens referem-se a um sistema de captação de água para rega em Caibros, Ribeira Grande.

09 Novembro 2009

Sete Sóis Sete Luas adiado


A versão crioula do Festival Sete Sóis Sete Luas, que acontece todos os anos em Novembro, na vila da Ribeira Grande(foto) , e que este ano estava previsto para os dias 13 e 14, foi adiado.
Motivo: dizem que é por causa da epidemia de Dengue que está a afectar o país.
Nova data: segunda quinzena de Dezembro ou inícios de Janeiro. Sinta10 fica a espera!
Foto: BCN

04 Novembro 2009

Sinta10 só tem olhos para Santo Antão! O novo espaço será mais "vagabundo" e mostrará um pouco mais de Cabo Verde... pelas fotos que fiz, pelas fotos que faço.

03 Novembro 2009

Localidades

Boca de Coruja (com publicidade gratuíta e tudo)

Situada a cerca de 10 kilómetros da vila da Ribeira Grande, no vale com o mesmo nome, a pacata zona de Boca de Coruja ganhou outro fôlego com a recente construção de um dos empreendimentos turísticos mais fabulosos da ilha: o Pedracin Vilage. Um hotel que alia a modernidade com o que de mais tradicional tem na ilha.


Fotos: BCN

Localidades

Ponta do Sol (numa tarde sem sol)

Da vila da Ponta do Sol assiste-se a um pôr-de-sol fantástico! Um dos mais espectaculares no rol daqueles que costumo ver. Mas, sem sol, Ponta do Sol é igualmente interessante.


Post dedicado à F.C., uma leitora que não conheço pessoalmente. A próxima rubrica "Localidades" contempla a zona de Boca de Coruja, também a pedido da mesma leitora.

Fotos: BCN

28 Outubro 2009

Bonito... bonito!


Afinal, não é em todos os lugares deste país que se diz "somos coitados, somos uns esquecidos, o papai (entende-se Governo, Câmara Municipal) não olha pra nós, há muito tempo que estamos a espera de..."

Esta notícia poderá ser bastante inspiradora. Um exemplo de cidadania!

Um abraço à malta.

Foto: BCN

Momentos Sinta10

Fotos: BCN

24 Outubro 2009

Férias na ilha (II)

O escritor e jornalista Miguel Sousa Tavares, citando a mãe dele, escreveu no seu livro "Sul" que "viajar é observar".
Sim, viajar é observar. Mas também viajar é fotografar. E fotografar não é uma forma de observar? Adoro observar, quer dizer fotografar, mesmo quando não há "nada" para observar e disparar. Adoro disparar e pronto. O acto - ingénuo - de disparar também compensa! Adoro viajar pelas entranhas da minha ilha e ... clik!



Fotos: BCN

09 Outubro 2009

Lua cheia em Ribeira Grande

Não sei porquê, mas na sequência do post anterior, lembrei-me desta fotografia que fiz em Agosto último. Haverá alguma explicação para essa relação?
Foto: BCN

07 Outubro 2009

(In)Sensibilidades


Ao longo da semana passada a RCV difundiu diariamente uma série de reportagens sobre Ribeira Grande de Santo Antão, da autoria do jornalista Carlos Lima. Num dos números, um dos entrevistados foi o presidente da Câmara local, Orlando Delgado. Dentre muitos aspectos abordados, falou da questão do urbanismo, tendo particularmente chamado a minha atenção a forma como se referiu aos "edifícios velhos" das vilas da Ribeira Grande e da Ponta do Sol. Falou em "pardieiros" e na necessidade de se proceder "à demolição" de muitas dessas "casas velhas" para que "as nossas vilas possam ficar mais bonitas".

Do meu ponto de vista, houve alguma ligeireza e falta de sensibilidade na forma como o autarca abordou essa questão. As vilas da Ribeira Grande e da Ponta de Sol são, a meu ver, verdadeiros patrimónios nacionais, desde logo pela sua elevada quantidade de edifícios de inegável valor histórico. Infelizmente muitos já atingiram um alto grau de degradação, e não tem havido medidas de fundo que possam garantir a sua preservação.
Veja as fotos que se seguem:

Edifícios do Terreiro (centro da Vila R. Grande)

Fachada lateral da casa onde nasceu Roberto Duarte Silva (vila R.Grande)

Casa onde funciona o Cartório Notarial e Conservadora dos Registos (Ponta do Sol)

Aspecto de uma casa numa das principais ruas da Ponta do Sol

Edifício ex. residência oficial do Pres. CMRG (Ponta do Sol)

Meio a sério meio a brincar, constumo dizer que essas vilas podem ser consideradas as São Filipe de Santo Antão. Mas carecem de uma atenção especial.
Fotos: BCN

30 Setembro 2009

Ferias na ilha

Caminhada Corda - Rabo Curto (Ribeira da Torre)

4 horas de caminhada, num percurso de cortar a respiração. Nevoeiro, vertigem, água cristalina, hortelã e inhames a dançar ao sabor da água que corre pela ribeira de Losnã, uma outra perspectiva do tal pico e muito mais...

fotos: BCN

28 Setembro 2009

Momentos de silêncio

...porque Santo Antão também sente muito a dor da sua partida. Foi na Penha de França, vila da Ribeira Grande, que o trovador conheceu os primeiros raios de sol.
Imagem: aqui

21 Setembro 2009

Chuva Braba

Por estes dias quase que não se fala de outra coisa a não ser das fortes chuvas que caíram, sobretudo nas ilhas mais à norte do país (São Nicolau, São Vicente e Santo Antão). Também, pudera... uns dizem que chuva igual nunca tinham visto, outros recuam 30, 40 anos, para poderem encontrar algo parecido. Se calhar nem mesmo a tal Chuva Braba que dissuadira Mané Quim de abandonar as estorricadas terras da Ribeira das Patas rumo à Terra Longe, fora igual.

E por falar nisso, o grupo teatral Juventude em Marcha encerrou ontem, em Mindelo, o Festival de Teatro Mindelact, com a sua mais recente peça, Chuva Braba. Ironicamente, a apresentação acontecia exactamente na ressaca de umas chuvas deveras bravas que vieram tirar o sono às populações e autoridades de alguns municípios do Norte do país.

Há cerca de 2 meses tive oportunidade de assistir, na Cidade da Praia, a apresentação dessa peça teatral, no Auditório Jorge Barbosa. Foram duas sessões, ambas bastante concorridas, como sempre.

Algumas semanas depois, por ocasião da Taça Independência realizada na cidade do Porto Novo, mantive uma breve conversa com Cesar Lélis , enquanto se aguardava por uma entrevista que iria conceder à TCV. Informara-lhe do facto de ter assistido a peça na Praia e ele perguntou-me qual tinha sido a minha impressão. "Gostei imenso! Sem perder o vosso estilo, conseguiram, com muita autenticidade, transpôr para o palco aquilo que Manuel Lopes escrevera. Só que, e isso não tira o mérito do vosso trabalho, estava a espera que dessem mais protagonismo à personagem Nha Joquinha, figura imprescindível de todo o enredo do romance. Na peça acho que passou um tanto ao lado!" - Respondi, ao que ele sorriu, dizendo que outras pessoas já haviam feito o mesmo reparo.

Continuámos a nossa conversa por entre uma e outra pirraça (ou não estivesse a falar com Nha Lolita!) Disse-me que o grupo tem acatado as críticas e estão a pensar rever algumas passagens da peça. Como ja tinha dito, é claro que há muito mérito no trabalho. Aliás, muitos dos que realmente entendem do assunto (não me incluo nesse rol, a minha análise é apenas de um espectador) já disseram que se trata da melhor encenação que o grupo já fez até hoje.

Com toda a popularidade e a fama que tem, Nha Lolita é um exemplo de simplicidade e humildade, um tipo raro. Talvez por aqui se começa a explicação da razão de tanto sucesso do Juventude em Marcha, um grupo que já experimentou o significado das bodas de Prata.

Foto: BCN (Cena de Chuva Braba, Auditório Jorge Barbosa)

18 Setembro 2009

Floresta do Planalto Leste revitalizada

"A ilha de Santo Antão vai ter 30 mil plantas na Floresta do Planalto Leste após a queda das últimas chuvas. Recuperar a devastação do perímetro provocada pelas secas e os incêndios, assim como reconquistar o antigo brilho da floresta são os objectivos pretendidos." in Asemana, aqui

Há coisa de 2 meses, após uma breve visita à ilha, publicava este post com uma certa dose de nostalgia. Hoje, com algum alívio, respiro fundo, acreditando que aquele cenário que vira tempos atrás está a desaparecer.

Aproveitando as minhas últimas férias na ilha, fui visitar a floresta num dia calmo e ensolarado. Apanhei o carro até a localidade de Corda e, a partir dali, caminhei à pé até à Cova, contemplando as belas paisagens que tal caminhada me proposrcionava.

Cedo pude me aperceber de que o perímetro florestal estava mais alegre do que meses antes. É certo que ainda não tinham caído as primeiras chuvas, mas dava para notar que, pelo menos, havia mais cuidado, mais zelo para com aquela coqueluche de Santo Antão. Vi dezenas de trabalhadores (homens e mulheres contratados pelo MADRRM) empenhados na limpeza da floresta. E eu, cheio de entusiasmo, comecei a registar algumas imagens (filmagens e fotografias) daquela azáfama que fazia lembrar as antigas FAIMO. Nisto, uma das senhoras que integrava um dos grupos de trabalho, olha para mim com ar de reprovação e exclama: "ógora bo te terbalhá bô sô... e nôs nô te marrá môn. Dpôs bô te recebê... bo te bem trêzên's."

Qual menino tímido, recolhi a minha câmara e prossegui a jornada, agora fotografando paisagens, convencido de que estas, as paisagens, nunca iriam resmungar à medida que fazia clique no disparador.

Tenho dito sempre que a estrada Porto Novo - Janela, não obstante a sua incontestável importância, significou um revés para os moradores do planalto Leste, já que o trâfego se desviou para o litoral. Mas, por outro lado, agora quando se passa pela floresta a sensação de descoberta é maior. E se estiver bem tratada e com mais árvores...
Que as águas deste Setembro chuvoso sejam tão abençoadas a ponto de fazerem garantir as tais 30 mil plantas. E, claro, que não haja incêndios!




3 meses atrás e agora

Fotos: BCN

14 Setembro 2009

Nha ilha que txuva (II)

Mal despontaram as pontes vieram as cheias para as inaugurar. A "cerimónia", pelos vistos, rompeu o protocolo e foi suave: sem descerramento de placa e consequente rebuliço dos aplausos; sem discursos de ocasião; sem placas a indicar o "inaugurador"... mas também, e isso é que vale, sem lamentações.








Obs: não sei quem fez as fotos. recebi-as by mail

11 Setembro 2009

Nha ilha que txuva

A chuva tardou em visitar a ilha, mas veio esta semana... copiosamente!



fotos de Alberto Pascal Neves Silva (aqui)

10 Setembro 2009

Taça Independência em Porto Novo

Um evento que marcou a Ilha
A última edição da Taça Independência, realizada em Santo Antão, vai ficar na história. Foi uma semana ímpar vivida em Porto Novo. A população deu um show de Fair play. Jogadores, dirigentes e treinadores estavam rendidos e eram unânimes em dizer que nunca tinham visto coisa igual. Por exemplo, quando, no jogo da final, Santo Antão já perdia por 3-0, nas bancadas colava-se SonJon com um estusiasmo que chegava a ser intrigante. Que coisa bonita!

Ah, nha ilha é séb pa cagá (isso mesmo, séb com é... diferente de "sab")

A seguir, alguns momentos da festa, com os bastidores da TCV que transmitiu todos os jogos em directo de Porto Novo.






Fotos: BCN

20 Agosto 2009

Férias

Sinta10 te regresá em Setembro k'um bokód d'nevdéd

29 Julho 2009

koraja sempre, Manuela!


A Cadeia Regional da Ponta do Sol tem, desde a semana passada, o seu próprio director, neste caso uma directora. Manuela Neves Pires foi ontem empossada no cargo e tornou-se na primeira mulher a dirigir uma cadeia em Cabo Verde, conforme a Inforpress.

Dizem que a cadeia é fixe, que os presos que lá estão vivem na deskontra. A jovem Manuela, natural de Janela, certamente que não terá grandes dores de cabeça no exercício da sua função, lá pelas bandas da tranquila Maria Pia. Ahh, e que não deixes faltar nunca kel m'tar d'injú.

27 Julho 2009

Visões

1. Visão Global - Na útltima edição (26 jul) do programa Visão Global, da TCV, Corsino Tolentino nas suas notas finais, propôs a realização de uma edição do programa na ilha de Santo Antão. Dizia ele que há muita coisa para falar sobre a ilha, desde logo a começar pela questão da descentralização.

Fiquei feliz! É muito bom ver pessoas do gabarito de CT fazer propostas como estas, desde logo porque a ilha de Santo Antão tem sido bastante esquecida ao longo dos anos (não, não se trata de um clichê, até porque tenho pouco jeito para alimentá-los. Trata-se, antes, de uma constatação)

Por exemplo, desde inícios dos anos 80 que os produtos agrícolas da ilha são embargados por causa dos milpés, sem que ninguém, ao longo de loooooogas duas décadas e meia, se tenha manifestado. Aliás o problema passa mesmo à leste dos círculos in da (alta) sociedade (b)verdiana. Outros há que desconhecem por completo o problema que tem deixado a ilha isolada e abandonada à sua sorte (à seu azar, queria dizer)

Agora, surge a notícia de que dentro de 10 meses, a ilha poderá exportar seus produtos para todas as ilhas, e para o estrangeiro, graças ao Centro de Pós-Colheita, Conservação e Inspecção, a ser construído em Porto Novo. Espero que o projecto venha a se concretizar no prazo estabelecido, quanto mais não seja para que possamos vangloriar de um dia terms conseguido fintar a PDM (nada de confusões! Para não estrapolar, clique aqui)

2 Visão sólgód - Há dias via no Jornal da Noite da TCV, uma reportagem na qual os moradores de Porto Mosquito, localidade do concelho da Ribeira Grande de Santiago, reivindicavam o facto de há já alguns meses não terem acesso aos sinais da TV pública nacional. Voltando as antenas para a outra Ribeira Grande (a de Sintadés), pus-me então a pensar: - coitado dos moradores da Freguesia de Santo Crucifixo, Santo Antão. Os pobres diabos já levam mais de 2 anos a ver (apenas) areia saltitar freneticamente no ecrã das suas TV's, quando, involuntariamente, pressionam o botão onde deveria estar programado o tal canal.

A população da freguesia, por razões óbvias (???) não tem uma câmara para a qual poderia fazer biocos e dirigir choros do género: nu mesti odja notícia, novela... a nos é koitadu, nu ka teni nada fozi, inda nu ta paga... Humms, estou a ver, sim, o rosto de um homem de meia-idade, ar sério, de boné à cabeça, a dizer para um microfone de cone alaranjado: nôs é eskcid, no te fká p'rei ness ku de mund, no'n d'oiá um nutiça, nos têmbê no m'stê oiá Valdmar Pires, novela, e otrôskosa k (e'n) t''intressóns. Afnal no te pagá um taxa de kués 500 melrrês...


Pois, a população local, paga a sua taxa mensalmente e em troca recebe areia nos olhos. Poxa, 2 anos te salgá uns gent oi, convenhamos, é muita méldéde! Um verdadeiro atentado aos Direitos Humanos, pá!

Soube agora que a RTC já prometeu resolver o problema nos próximos tempos. Bem...

24 Julho 2009

Juventude em Marcha na Praia

No ranká no bé oiá més um sucesso de plateia desse grupo de Sintadés

15 Julho 2009

O vale, o verde e a (falta de) estrada (II)

Há três anos (sim, Sinta10 já tem uns dôs dia), publicava neste espaço um post a reivindicar uma estrada decente para Ribeira da Torre.
Ao que parece, o vale vai ter finalmente uma estrada. Quando ficar pronta, kel pov de nhe R'bera agradece.
Foto: BCN

08 Julho 2009

Ele não morreu

Também nós por cá fomos na "f'ninha", triste fninha!, que proclamava a morte de Luis Romano.
O nosso "Vulto da Ilha" não morreu (ês goré'l e'mrrê)

Obrigado, "Boltchôr", pelo telefonema!

03 Julho 2009

Aconteceu este fim de semana...

... Festival Nacional de Violino, na Ponta do Sol

Dizem que foi um sucesso.
Acho que sim. Senti ontem um cheirinho na TCV.

02 Julho 2009

Mar brób

Historicamente o homem destas ilhas sempre travou uma luta com a Natureza, a ponto de ter aprendido "a comer pedras para não perecer". Essa luta assume contornos diferenciados, dependendo, como é óbvio, das características do próprio meio envolvente. Uns trepam íngremes montanhas a procura de um pão, outros desafiam o mar bravio, enfim...
Nas ilhas essencialmente rurais, moda sintadés, o grau de dureza da batalha é determinado grandemente pela vinda ou não da chuva. Se esta vem, os campos estão fartos, ninguém se lembra do governo (ia dizer FAIMO, mas...); o cinto desaperta, os municípios podem "fechar os cordõees à bolsa" ou pelo menos desmérrés menos vezes (claro, se bolsas houver)

Mas a coisa não é exclusiva do meio campestre. Em localidades piscatórias como Cruzinha de Graça, por exemplo, quando o mar está revolto (Janeiro, Feveriro) a população local ta passá um bocód à bróxa uma vez que os pescadores não podem lançar-se, com tanta frequência, ao mar.

Em Lagoa (ah pois, era aqui que eu queria chegar!) quando vem a chuva há fartura: há centenas de cabras a pastarem campo afora, há feijão verde e há também o famoso queijinho em abundância. O produto vende sem problemas, apesar dos nomes que os blasfemadores, sebérbes quando fartos, inventam para os denominar (one póssod de cima, havia muito queijo na ilha e passaram a chamá-los CD)

Em 2008 o ano agrícola não foi famoso por aquelas bandas. Os moradores do Planalto Leste começaram a vender as cabeças do seu gado a preços irrisórios para poderem sobreviver. Tentar sobreviver vendendo a (única) garantia do seu sustento! Ah, pobreza é parv, como diria a malta lá de R'birinha de Jorge!
E este ano? A coisa mudou/vai mudar de figura, e para pior, bem pior!!! Porquê?
A resposta é simples: Estrada Porto Novo - Janela.
Pois bem, com a construção da nova estrada, o fluxo de passageiros mudou de direcção. Agora ninguém anda na antiga estrada de montanha. A população do Planalto Leste não tem como vender seus produtos. Antes bastava levar o balaio de feijão, de maçã, de queijo para a berma da estrada, esperar pela passagem dos viajantes e... tá vendido. E agora? o que irá fazer essa população, tradicionalmente já bastante sofrida? Dizem que alguns têm vindo a descer para a vila da Ribeira Grande, onde tentam vender seus produtos, e não raras vezes regressam à casa à pé.

Não há dúvidas de que a nova estrada Porto Novo - Janela veio trazer outra dinâmica à região Norte da ilha. Mas, também é verdade que foi um grande revés para as comunidades que habitam o Planalto Leste. Mar ta brób lá pa ques banda.

Mar Mónse ne Cais de Porto Novo

Foto: BCN

30 Junho 2009

Viagens na minha ilha

Tenho escrito muito sobre o vale da Ribeira da Torre, aqui no Sinta10. Desta vez, o olhar e a pena são de fora, logo insuspeitos. Eis o texto:

Ribeira da Torre

" Uma das ribeiras mais sinuosas de Santo Antão, a Ribeira da Torre é um convite à descoberta de pequenas plantações de banana, ao longo das encostas e propriedades agrícolas familiares ricas e exuberantes. A estrada, de terra batida, ladeia um grupo de coqueiros que balança ao sabor do vento, como num acto de boas-vindas ao visitante.
Da origem da designação Torre pouco se sabe, mas tudo indica que a imponente torre de pedra que se ergue logo na primeira curva, no lugar de Longueira, não passou despercebida aos primeiros povoadores do local. Longueira é, também, o nome de uma das maiores propriedades agícolas da região. Cana-de-açúcar, banana, mandioca, papaia, bata-doce, são produtos que se podem encontrar aqui, ao lado de árvores de fruta-pão e um dos mais antigos trapiches de aguardente da região.
Atravessada por cursos de água de regadio que desce das encostas, a estrada penetra a ribeira, onde serpenteiam levadas que trazem a água fresca das fontes no alto das rochas e dos reservatórios. Das casas das encostas chegam-nos os acordes dos últimos êxitos dos artistas locais radicados na Holanda; janelas e portas abertas, pátios solarengos convidativos à contemplação e ao lazer. O clima é mais fresco, húmido, porque os raios de Sol apenas aqui e ali se fazem sentir e durante poucas horas do dia.
Ao longo de mais de uma hora de marcha plantações e povoações sucedem-se e a ribeira estreita-se, entre duas vertentes agudas na rocha, para tornar a abrir-se num pequeno e curto vale, antes da próxima e misteriosa curva.
No final do nosso passeio, chegamos a Xô Xô onde se encontra a antiga propriedade da família Rocheteau: a velha casa cor-de-rosa de batentes de portas e janelas azuis, isolada, à sombra da vertente da montanha que se ergue várias dezenas de metros acima. A família há muito que deixou Santo Antão rumo a Portugal. A propriedade pertence agora ao Estado. Mas todos na região se recordam e falam do senhor Rocheteau como se fosse um parente...
Depois de Xo Xo a estrada – agora calcetada – faz uma curva para a direita e inicia uma subida íngreme, torneando a encosta, para ir ao encontro da estrada principal que liga Ribeira Grande a Porto Novo. O caminho é lento e depois de se ter percorrido toda a Ribeira da Torre, é preciso muito fôlego para continuar, mas vale a pena. Grupos de turistas e visitantes costumam combinar o encontro com a carrinha de transporte no final da caminhada. "


Texto: JA (extraído aqui)


Foto: BCN

26 Junho 2009

Decadência II


Santo Antão quase já não produz côcos. Aliás, na ilha, praticamente já não há coqueiros. Uma famigerada praga assaltou essa especie e fez cair todas as folhas. Só ficaram os troncos erectos, apontados de forma lasciva para o céu.

kasta de destin ê esse?

18 Junho 2009

Decadência

Há algumas semans a OADISA (Organização das Associações para o Desenvolvimento Integrado de Santo Antão) veio à público mostrar-se preocupada com o "estado degradante" em que se encontra a floresta do Planalto Leste, em Santo Antão.

Da última vez que estive na ilha (há coisa de um mês) não pude testemunhar o estado dessa parcela, por causa da nova estrada (pois é, agora todos os caminhos vão dar à Janela, os moradores de Corda ou Lagoa, coitados, já mal conseguem vender um queijinho ou um litro de feijão verde)
Em janeiro último já tinha passado pela floresta e fiquei triste com o estado deprimente daquele pulmão da ilha. Até fiz algumas fotografias mais para alimentar a minha nostalgia do que, propriamente, para deleite.

Na minha infância, cheguei a conhecer na ilha lugares que eram regadios, com hortas bem animadas, e que hoje estão ressequidos. Entretanto, já ouvia os mais velhos dizer que outros locais eram outrora pantanosos, o que me custava acreditar.

Agora penso: o que será que irei dizer aos meus filhos ou netos? Será que terei de explicá-los que no Planalto Leste havia uma densa floresta de pinheiros?

Caso para perguntar: Para onde vamos, hein?

11 Junho 2009

Festival Nacional de Violino está de volta

Travadinha é o homenageado
Eleições? A próxima, (in)felizmente só acontece daqui a 2 anos. Por isso, está de regresso à vila da Ponta do Sol, o Festival Nacional de Violino que, no ano passado, não se realizou por causa das eleições autárquicas (má ukiê kum kosa teria a ver k'ot, ein?!!)

Este ano o certame, que deverá acontecer no próximo mês, homenageia o Grande violinista que foi Travadinha, natural de Santo Antão (Janela).

Ai, o grande Antunin Travadinha, de quem muito pouco se fala! Sempre que oiço as melodias deste saudoso filho de Sintadés, fico impressionado com as tchoradinhas de um violino singular.

Como diria Silva Roque, quem nunca ouviu a morna Bulimundo a ser interpretada de forma sublime pelo grande Travadinha?

Nota Biográfica de Travadinha:
António Vicente Lopes, Antoninho Travadinha, foi um músico autodidacta, que nasceu em Santo Antão. Com apenas 9 anos, começou a tocar nos bailes populares, mas só viria a alcançar a fama já nos seus quarenta anos, quando empreendeu uma tournée por Portugal.
Para além do violino, Travadinha tocava também viola (guitarra de 12 cordas), cavaquinho e violão.
Faleceu em 1987, no auge da popularidade.

09 Junho 2009

Juventude em Marcha na Net

Já está disponível na Internet o Site do grupo teatral Juventude em Marcha, do Porto Novo. Com muita informação sobre o grupo, a página ainda disponibiliza um importante acervo fotográfico sobre os diferentes momentos de actuação do mais antigo agrupamento teatral de Cabo Verde, em actividade.
Consulte o site aqui

Foto: arquivo do grupo(no site)

12 Maio 2009

Metáfora


"Já no ca tá nos sô! Janela agora tem túnel, Janela agora ta esticá mon e ta dá Porto Novo monzada"

Palavras de um morador de Janela às antenas da RCV no dia da inauguração da estrada

09 Maio 2009

Para lá do asfalto

A partir de agora, quem chegar à Santo Antão e tiver que rumar à região norte da ilha terá duas alternativas. Estando em Porto Novo (a única porta de entrada da ilha) e tendo como destino Ribeira Grande, a opção mais natural será curvar-se para direita e tomar a direcção da novíssima estrada inaugurada hoje, 09 de Maio.
Esta opção é a mais natural por diversas razões. Primeiro, porque a infra-estrutura é moderna, asfaltada e sem grandes declives, o que faz diminuir consideravelmente o tempo de viagem. Alia-se à tudo isso o facto de uma estrada em superfície mais ou menos plana representar menos gastos para as viaturas do que uma via de montanha, com muitas inclinações, como é o caso da estrada que passa pelo Planalto Leste.

Mas em matéria de ganhos, os habitantes do concelho do Paul têm muitas razões para estarem radiantes. Por exemplo, um morador de Janela, que antes estivesse em Porto Novo era obrigado a galgar cerca de 49 kilómetros para chegar ao seu destino. Ora, pela nova estrada, esse mesmo habitante precisará apenas de 23 kilómentros, ou seja, menos de metade daquilo que antes era obrigado a fazer.
Já em relação a um ribeira-grandense, o percurso ficará praticamente igual em termos de distância (cerca de 36 kms), mas com a vantagem de o percurso ser feito em muito menos tempo.

Por conseguinte, é previsível que a (velhinha) estrada que passa pelo planalto leste venha a sofrer de forma drástica uma diminuição do seu tráfego, o que não significa que venha a deixar de ter importância. Construída na década de sessenta, essa estrada foi desde então, e até dias atrás, a única via de ligação entre os eixos sul e norte da ilha. Tida como uma das melhores, senão mesmo a melhor, infra-estrutura construída na ilha no século XX, a estrada continua a ser um dos ex-líbris de Santo Antão, sobretudo devido à forma engenhosa como foi construída por entre montanhas abruptas e serpenteantes, aliada à diversidade da paisagem que a envolve.

De facto, um visitante nunca ficará indiferente perante cenários paradisíacos como o da zona de Água das Caldeiras envolta num manto verde de pinheiros e cedros e que se estende até a zona da corda. Igualmente, é de se cortar a respiração partes como o troço que atravessa a zona do Delgadin, com o profundo vale da Ribeira da Torre ao fundo, e outros recortes, autênticos miradouros que fornecem vistas panorâmicas para falésias e vales profundos.

Enfim, embora ainda não disponha de um anel rodoviário que satisfaça todas as necessidades da ilha, Santo Antão pode já orgulhar-se da peculiaridade das estradas que tem. Por exemplo, a antiga que liga Porto Novo à Ribeira Grande, ou vice-versa, é uma autêntica obra de arte, rasgada sobre montanhas que atingem o céu, e a recém-inaugurada Porto Novo-Janela, é peculiar pelos seus dois túneis, únicos até agora em Cabo Verde. Poderíamos falar ainda dos pormenores de outras rodovias da ilha como a de penetração do vale da Ribeira Grande, ou ainda, a via (o caminho, talvez) que liga Ponta do Sol às Fontainhas.

Para terminar... as vantagens da estrada Porto Novo - Janela afiguram-se múltiplas. Mas, por agora, quero apenas pensar num pormenor: o Farol de Boi. Vítima de longos anos de abandono, é de se esperar que venha a ter outra sorte nos próximos tempos. É que, se antes ficava isolado, agora a nova estrada passa aí mesmo ao lado.
Já não faz sentido, pois, cantar Janela na bo cantin bossô. Como disse um morador, no dia da inauguração, Janela já tem túnel, Janela agora te esticá mom e ta dá Porto Novo monzada.
Fotos: aqui

07 Maio 2009

Depois da tempestade...


Ao que parece a chuva resolveu dar uma trégua lá pelas bandas do Norte de Sintadés e, logo, as pontes despontaram-se.
Os meses de Outubro e Novembro últimos não foram nada complacentes com os donos das obras (ver este post) e mostrou que embora visite com raridade estas ilhas, a sua vinda deve ser sempre tida em conta.
Na altura, tratou-se apenas de uma chamadinha de atenção por parte da chuva amiga. Afinal, nunca devemos esquecer que Outubro é mês de escorroço.
Fotos: aqui

24 Abril 2009

Entardecer na ilha (II)

Foto de Felix H.

20 Abril 2009

Entardecer na ilha


Foto: BCN

17 Abril 2009

Tê Qu'Enfim... Realidade

Recebi anteontem de um amigo (que por sinal nem é de Sintadés) estas fotografias* da estrada Janela - Porto Novo, com a indicação expressa: "pa po na Sinta10".
Acostumado que estava/estávamos a ouvir falar do projecto dessa estrada, desde tempo de cniquinha, agora cá estão as fotos para que os apologistas de São Tomé (eu inclusive) possamos descansar. Vimos, gostámos e... cremos (ufff, tê qu'emfim!)
A infra-estrutura, a ser inaugurada no próximo dia 9 de Maio, vai, de certeza, trazer outra dinâmica à ilha de Santo Antão, a começar pela melhoria consideravel do contacto/ comunicação entre os eixos Norte - SUL

Passados dois anos após ter escrito este post sobre essa estrada, eis-me aqui de novo, agora com outro desejo que não aquele de voltar a ser criancinha, bla, bla, bla. Quero mais é chegar à ilha, pô pé ne kémim e dá um giro estrada-fora a contemplar as falésias, os recifes e a vista panorâmica sobre o Atlântico.
Afinal, a ténue luz que durante loooooongos anos permaneceu no fundo do túnel, transformou-se agora em várias luzes que se espalham por dois túneis. E quero contemplá-los, hehehehe.

*Não sei quem fez as fotos. O meu amigo também não

08 Abril 2009

E se Estritin fosse "canyonado"?



Até a chegada da notícia de que Santo Antão iria acolher de 5 a 12 deste mês a 8ª reunião de Canyoning, eu conhecia muito pouco sobre a modalidade. Fui então pesquisar e vi imagens impressionantes desta modalidade desportiva radical. Logo lembrei-me de Estritin, uma ribeireta situada nas entranhas de Caibros, concelho da Ribeira Grande.
Só o facto de estarmos nesse esconderijo, por entre montanhas selvagens, já faz aumentar a adrenalina. Por isso imaginei uma etapa desta prova a passar pela cascata de Estritin. Não conheço o itinerário, não sei se foi uma das 16 ribeiras contempladas pela prova. Mas, seria deveras uma experiência única ver o canyonistas a traspor a cascata de águas cristalinas que flui por entre a estreita ribeira ladeada por montanhas arrepiantes.

Cascata de Estritin
Foto: BCN

Canyoning chega em Santo Antão


A ilha de Santo Antão é, desde o passado dia 5 de Abril ,centro mundial do Canyonning, uma modalidade desportiva radical que consiste na exploração progressiva de um rio, com os praticantes a tentarem trasnpor todos os obstáculos que vão encontrando.

Santo Antão é o primeiro território em África a acolher esta reunião. As anteriores já aconteceram em países como Itália, México, Espanha e França.

A ilha não tem rios, é certo, mas tem vales e ribeiras imponentes, com caudais de água permanentes. É a "descoberta" de uma ilha que esconde inúmeras potencialidades em diversas áreas. Quem sabe esta 8ª reunião de canyonning venha a dar o mote para que Santo Antão definitivamente possa estar a afigurar-se no mapa de eventos/modalidades relacionadas com montanhas, Ribeiras, caminhos vicinais...

Participam nessa prova aproximadamente 90 atletas internacionais em representação de 11 países, incluindo Cabo Verde. Estes irão escalar, ao longo de uma semana, cerca de 16 ribeiras.

29 Março 2009

Vultos da Ilha

César Lélis
Frénk de Pi, Senhor Ontôn, Nha Lolita... são alguns dos nomes hilariantes por que ficou também conhecido esta figura carismática da ilha de Santo Antão. O actor ganhou este ano o prémio Mérito Teatral da Associação Mindelact e recebeu a distinção, ontem, Dia Mundial do Teatro.

A este vulto da ilha, uma das figuras santantonenses mais populares de todos os tempos, Sinta10 faz um tchintchin: à sua saúde e à saúde das nossas gargalhadas.

27 Março 2009

Palmas pr'AMI-RIBEIRÃO

Tenacidade da mulher de Santo Antão petrificada em estátua

A Associação dos Amigos de Ribeirão/Campo de Cão (AMI-RIBEIRÃO) Homenageia hoje, 27 de Março, a mulher santantonense com a inauguração de uma estátua na localidade.


Ribeirão, outrora uma localidade árida e extremamente carente, ganhou na última década, uma dinâmica que a tem transformado numa região bastante próspera. Tudo, graças ao associativismo. Muitas famílias que antes dependiam quase que exclusivamente das estafadas FAIMO, têm hoje a sua própria fonte de rendimento com base, sobretudo, na agricultura com o sistema de rega gota-a-gota.

O presidente da Assembleia Nacional, Aristides Lima, vai marcar presença no acto de inauguração da estátua, com 2,5 metros. O empreendimento homenageia a tenacidade da mulher da ilha. Uma mulher que sobe ladeiras, desce covoadas, atravessa kilómetros de caminhos vicinais de carga à cabeça; uma mulher que foi à São Tomé e regressou agastada, mas permaneceu tenaz; uma mulher "sem anel nem colar, prata e ôr, de lenço mórrod, sem véidéd nem méldéd; de cachimbo à boca, estrrachada"...

01 Março 2009

Nha ilha em transe


Fotos: BCN

25 Fevereiro 2009

Momentos

No dia de cinzas, p'ra não variar, fomos ao interior de Santiago. Mas não apreciámos apenas a comida típica. Nessa tarde, a partir de Assomada, deliciámo-nos com a imagem do Vulcão do Fogo a exibir toda a sua grandeza e imponência.

Mesmo em Santiago Ele é balenti, mesmo em Santiago, pá ...


Fotos: BCN

18 Janeiro 2009

17 de Janeiro - Ribeira Grande né festa

Não, ess e'n nê um boca te gritá dia de liberdéd quês te dzê ma é dia 13 de Jêner.
Ess é um pormenor de uma das esculturas do edifício da Câmara Municipal da Ribeira Grande.
O concelho festejou ontem o seu dia com Ferro Gaita, Vadu, Nhô Kzick, corrida de cavalos, futebol, discursos, TCV (!), feira de produtos agroalimentares...
Bem, nos boca ca tava lá

Foto: mindelinfo.com

11 Janeiro 2009

Uma escalada ao Topo de Miranda

Topo de Miranda (ou Tôp d'Mranda no vernáculo) é a emblemática torre que se ergue no meio da Ribeira da Torre. Aliás o nome do vale deve-se precisamente ao monte.O vale é conhecidpelas suas inúmeras maravilhas que vão desde as extensas plantações de bananeira e cana de açúcar, passando pelos seus recantos imponentes como é o caso de Xoxô, que, como um dia comentou Paulino Dias "é, sem dúvida, um dos lugares mais belos deste país (...) pela semi-circularidade das montanhas ao redor, a frescura, a harmonia, a idéia de "fechadura" que se desenha desde à entrada do Canto, passando pela borracha, até chegar no viradouro embaixo dos pés de manga..."
Não obstante tudo isso, é justo dizer que não se pode aludir ao vale sem se fazer referência à sua Imagem de marca - O Topo de Miranda - plantado no meio da ribeira qual Torre Eiffel na Cidade das Luzes.
Pois é, Topo de Miranda está lá de plantão e perscruta o vale de ponta a ponta, como que em defesa da sua gente. Cresci no sopé do monte, sempre sob o seu olhar protector, via-o como uma entidade intocável. Da infância guardo as imagens das biafas e passarinhas a dirigirem-se de imediato ao "gargolin" do monte onde iam devorar os pintainhos que maldosamente conseguiam roubar às galinhas da redondeza. Mas também as lembranças das estórias de seres incontód que diziam habitar as suas supostas grutaas, onde faziam diabo e 4.

As criações fantásticas em torno do Top de Miranda que povoavam o nosso imaginário de menino perderam-se com o tempo e hoje a postura perante a Torre mudou-se de timidez para a ousadia.

Foi então sem os inocentes receios de outrora, que no passado dia 4 de Janeiro um grupo de 13 rapazes da Ribeirinha de Jorge resolveram escalar o monte, assim, do nada. Reunímos e lá fomos nós, de repente. Levamos verduras, uns quantos quilos de cavala, alguns litros de vinho... e num dos seus "ombros" inventamos uma caldeirada. Lela era o cozinheiro de serviço. Na frente da cata da lenha estavam o Gil (neto do Ti Beto, dono de uma tirrinha onde ficamos acampados), o Biôco e o Zazá. Lorenço de ti Lela Ménquin era o tocador de violão, Rui de Dada, meu irmão, animava a malta com as suas pirraças, Djedjê de Mri Sofia, Antão de Silvino, Tóia e Chico distribuíam quel cóc, Cleidi e Nany - os codês - observavam tudo serenamente, enquanto eu era o fotógrafo de serviço.
O tempo estava meio abafado, havia um friozinho que vinha do mar de Puvoçon, mas a malta estava aquecida com bebida, bafa, cantigas, pirraças e gargalhadas.
Lá no fundo do vale víamos a vida a desenrolar-se: de um lado Cabouco de Peringuerina, do outro Ribeirinha de Jorge e, no meio, Lugar de Guene e Cabouco de Cosco. Controlávamos tudo, sentíamos poderosos no alto da imponente torre. Para muitos de nós, a grande maioria, era a primeira vez que subíamos o monte. E as surpresas foram muitas. Fiquei encantado com a pequena nascente que alimenta a hortinha do Ti Beto. E foi dessa hortinha de extraímos batata doce, coentro e couve para completar a nossa caldeirada. E que caldeirada! Devorámos tudo, os cófótches de bananeira, que serviam de pratos, ficaram limpinhos.
Depois da ceia, os cânticos. Do alto do nosso palco, víamos a plateia lá em baixo que certamente estaria intrigada: "Estarão loucos?" - devem ter pensado. Mas não estávamos, estávamos mais era séb pô fronta! Na ressaca das festas de Natal e fim de ano, haveria coisa melhor do que tmá um vento ne cocuruta de cabeça, do alto do Topo de Miranda?
Ali tão perto (e ao mesmo tempo tão longe) foi preciso esperar tanto tempo para se aventurar pela primeira vez monte acima?!! Uma experiência singular. A malta gostou tanto que já pensa voltar ao lugar, num dia desses.






07 Janeiro 2009

Bonança ou bobrança?

Na ressaca das chuvas de Outubro e Novembro passados, as meradas, seladas e ladeiras de Santo Antão vão produzindo o que podem. Não se pode dizer que estejamos a reviver os tempos de dçapá bóbra fezê bécia, mas que bobra ti tá dá até n'altura, lá isso ninguém pode negar.
E de repente passa a não ser assim tão bizarra aquela estória do fulano que tinha o braço partido por ter caído, imagine, de um pê de bôbral.

Fotos: BCN

13 Dezembro 2008

Reencontro

O Natal está à porta. Eu vou p'ro meu Sintadez, estou ansioso! Este ano a ilha virou uma autêntica "Europinha". Os meses de setembro e, sobretudo, outubro bafejaram a ilha com muita chuva. "Dizem que o campo se cobriu de verde, da cor mais linda que é a cor da esperança". Quero ver e sentir o bafo da terra-minha. Quero recordar Cabral e acreditar em Nunes: "sonho que um dia..."
Enfim, apetece-me dizer que vou para o meu planetinha, o meu planetinha verde, que tanto estimo!
Pedra em Estritin
(foto: BCN)

27 Novembro 2008

Corvo

Gosto muito deste lugarejo. É uma das muitas zonas encravadas do concelho da Ribeira Grande. Os carros não chegam lá, mas há telefone e energia eléctrica 24 horas por dia. Corvo sofre muito com o êxodo rural e hoje o lugar é maioritariamente habitado por pessoas velhas ou de meia idade. A maioria dos nativos migraram-se principalmente para Ponta do Sol, que é a vila mais próxima.
Mas Corvo é um esconderijo que proporciona ao visitante momentos únicos: na comunidade pratica-se agricultura de regadio (cultivo de inhame, cana de açúcar, banana...) e de sequeiro (milho, feijões...). Há um vale bem estreito e mais ou menos comprido que se penetra pelas montanhas adentro; há água límpida a correr pela ribeira onde ainda se pode encontrar agriões e hortelãs; há patos a nadarem nos pequenos pântanos... e o mar está há poucas centenas de metros.
Tirando a falta de estrada, corvo tem de tudo um pouco, é um encanto! O próprio trajecto, em caminho vicinal, acaba por ser um prazer: as dezenas de curvas em declive, a fresca brisa que vem do mar que fica lá em baixo, a vista panorâmica sobre o oceano, enfim... belezas escondidas da minha ilha!

foto: fonte aqui

15 Novembro 2008

"BAGDAD" paralisado

Esta notícia fez-me recuar alguns anitos (cerca de seis) e recordar a altura em que percorríamos diariamente a pé o trajecto Ribeira da Torre - Vila da Ribeira Grande, para assitir às aulas no liceu Suzete Delgado. Bem, no meu caso, nem eram grandes distâncias. Da minha Ribeirinha de Jorge até ao centro da vila são menos de 3 kilómetros, percurso esse que fazíamos em 25/30 minutos. Mas tinha colegas de turma que, por morarem mais acima, galgavam a pé cerca de 5 ou mais kilómetros até chegarem ao liceu.

Ainda não havia autocarros e estávamos tão acostumados! A nossa maior inimiga era, sem dúvidas, a fumaça levantada pelos carros e pelas esporádicas ventanias. Éramos obrigados a lavar o nosso uniforme duas ou três vezes por semana, porque senão, a gola que era verde-clara ficava castanha. Mas não era só a roupa. Os nossos sapatos também sofriam. As solas gastavam-se facilmente e, (in)felizmente, ainda as lojas chinesas eram insignificantes.

À entrada da vila, lá na K'Beça de Vaca como diz minha avó, montávamos uma autêntica estação de lavagem e recauchutagem das nossas "rodas", para que elas não parecessem castanhas em vez de pretas.
Bem, hoje há viaturas de aluguer a cobrar 20, 30, 50 escudos, conforme a distância, para quem quiser e tiver possibilidades de ir de carro. Há também o autocarro escolar para aqueles que moram um pouco mais distante - o "Bagdad - conforme os rapazes trocistas do vale o apelidaram por causa da sua cor que mais parece uma máquina das Forças Armadas. Neste momento está parado por causa das péssimas condições da "estrada" de penetração do vale. A "estrada" que corre para o mar sempre que uma chuvinha mais intensa origina um ribeiro.

Fotos: asemanaonline

13 Novembro 2008

No (vo)AR

Um aeroporto é uma necessidade para a ilha de Santo Antão”(...) Esse aeroporto tanto pode ser em Porto Novo como em qualquer dos outros municípios da ilha. O fundamental é que ele seja construído”
Amadeu Cruz, Presidente CM Porto Novo, in Liberal

08 Novembro 2008

"Grétas" da minha ilha




Aprecio muito, muito mesmo, a mão de obra dos antigos anónimos da minha ilha: Aqueles que, como costumo dizer, não tiveram (nem terão) direito a bustos nem covas compradas nos cemitérios.

Fotos: BCN

03 Novembro 2008

A magia do Bana no Auditório Nacional

Afinal, o talentoso é também um busód
Quem há alguns meses lia as notícias sobre o estado de saúde do Bana em Lisboa, certamente não pensou que, hoje, passado pouco tempo, o artista pudesse estar de volta aos palcos com tanto fulgor, talento e, acima de tudo, boa disposição.
Pois é, o Auditório Nacional Jorge Barbosa, na Praia, recebeu ontem um memorável concerto. Bana, ao seu grande estilo, empolgou uma assistência que ao longo de mais de uma hora aplaudiu sem parar este colosso da nossa música.
Era a primeira vez que assistia a um concerto desse gigante da música nacional, ao vivo. Um grande privilégio!

Cantar é, sem dúvida, aquilo que melhor sabe o GIGANTE fazer. Isso não constitui novidade para ninguém. Só não sabia que, para além de encantar a cantar, Bana encanta com a sua forma de estar no palco. Ontem ele revelou ser uma pessoa muito comunicativa e bastante busód. Com um sentido de humor apurado, Bana fazia o público soltar umas boas gargalhadas cada vez que a ele se dirigisse.

O ínício foi emocionante: entrou no palco a interpretar a eterna "Lena" e quando terminou, pediu desculpas por "ca ter cumprimentód antes". De seguida lembrou os momentos difíceis por que passara meses antes e agradeceu "aos médicos, ao povo cabo-verdiano e ao governo de Cabo Verde." Por essa altura, comovido, quase deixou verter algumas lágrimas. O público aplaudiu com emoção e Bana retribuiu com mais uma morna imortal.

Numa noite de grandes mornas e coladeiras, Bana recebeu o carinho de um público maravilhoso que cantava junto com o mestre, apaludia sempre e, de vez em quando, uma ou outra voz se ecoava no meio da noite a pronunciar frases de admiração e estima. Por exemplo, a uma dada altura, na ligação de uma música a outra Bana, ao expressar algumas palavras, fez umas reticências "mim é.... ". Logo um grito soltou "... bo é um Património". Bana completou "é verdade, um património."

Mas foram muitos os momentos sublimes (aliás assim foi todo o concerto). Eis mais alguns momentos que resgitámos:
  • Na morna Lora Bana chamou uma jovem e fizeram dueto. A menina foi corajosa, mas passou no teste;
  • Na coladeira mexê mexê Bana esboçou um pé de dança e o auditório entrou em delírio. Que ovação!;

  • Antes de interpretar Maria Bárbara Bana dedicou essa morna a uma criança desconhecida que através de um terceiro lhe tinha enviado um recado: "iria ao concerto só para o ouvir cantar Maria Bárbara";

  • Na parte final, Bana diz: "ja'm ti te bem dá más só 2 muzca: um é pa cabá, ot é pa consolá"(...) e'm tem 5 minuto pa'm pensá que música ti te bem ftchá bsot ess not". Esta foi mais uma tirada de humor que deixou a plateia dodu;

  • E para acabar mesmo, Bana despediu desta forma: "bsot é maravilhoso, bsot é estrondoso... mas... mim também e'm ca ta fcá pa trás"

Enfim... momentos desses são raros neste país de música. Está de parabéns quem teve a ideia de voltar a trazer o Grande para o Auditório, desta vez não para interpretar apenas 4 músicas, felizmente. O concerto de ontem mostrou que o público, seja ele da Praia, de Soncnet, Sintanton, Fogo, Brava... está sedente de mais eventos culturais.

Parece que o Auditório Nacional - até bem pouco tempo tido como um autêntico Elefante Branco, começa a ganhar alguns pigmentos diferentes... digamos mais naturais. Que venham agora outros artistas: Cesária Évora, Tito Paris e a sua Orquestra (o tal sonho), Tcheca, Princezito, Teatro, dança... pelo menos tud fim-de-seman um evento, hehehehe (sonhar é bom)

Hah, em jeito de basofaria: a última música da noite, a tal consolança, foi Fitche Fatche na Tracolança. Música que relata um "fitche fatche" na Ponta do Sol, vila sintadezense.

25 Outubro 2008

A propósito de Santo Antão Património Nacional

Sinta10, como é óbvio, não poderia ficar indiferente a este post. Pode ser que tenha sido realmente um delírio. É que vem de uma Ala que está muito à margem, logo dá para desconfiar. Mas, de todo o modo... vou embarcar também neste "delírio".
Os caboverdianos, por "amor à terra" deveriam procurar conhecer melhor esta parcela do seu território. Conhecer a fundo os seus atractivos naturais, os seus costumes, as suas tradições, enfim... procurar mergulhar um pouco mais no seu quotidiano mais profundo (sem esteriótipos, sem PRÉ-conceitos)

Santo Antão é...
  • riqueza;
  • encanto;
  • um Património Nacional, logo... um DELÍRIO
    Pena que eu seja um suspeito, mas ...
Fotografia: fonte aqui (desfrute!)

22 Outubro 2008

Levá ma trêzê

As últimas cheias em Santo Antão não só levaram muita coisa para o mar, como também trouxeram outras para a ribalta. Que o diga a população da vila da Ribeira Grande que está agora a sofrer com os efeitos do cheiro de "derivados de óleos queimados e gasóleo", vindos à superfície depois das enxurradas de 6 e 7 de Outubro.

O facto está a desencadear uma interessante discussão aqui.
De repente, a população se desperta para o problema da poluição ambiental que há anos afecta o concelho. O caso da lixeira em Barbasco é, talvez, o caso mais gritante, com a população de Monte Joana e zonas limítrofes a inalarem o fumo que diariamente sai dessa ligeira rumo ao planalto. Estas cheias podem ter dado o mote para que venham a aparecer soluções para os problemas de poluição no concelho. Sobre a localização da central electrica, há muito que se fala no projecto da central única. Quanto à lixeira...

20 Outubro 2008

Sete Sóis Sete Luas

A versão cabo-verdiana do festival Sete Sóis, Sete Luas, que acontece anualmente na Vila da Ribeira Grande, já tem data marcada. 14 e 15 de Novembro são os dias em que Puvoçon vai estar movimentada com artistas cabo-verdianos, portugueses e italianos. Segundo a Inforpress já estão confirmados as presenças do grupo português "Navegantes" e do italiano "Terra Mata". A organização - CMRG - promete melhorias para este ano e já tem programado como uma das actividades paralelas "uma acção de formação destinada aos estudantes que frequentam as escolas do ensino secundário no concelho da Ribeira Grande."
Como as actividades culturais na vila não abundam (aliás são mesmo raras) Sinta10 espera que a população da ilha venha a desfrutar do certame e que os sóis e as luas das sete partidas iluminem a vila durante esses dois dias.

Por falar em escassês de actividades culturais, agora lembrei-me que o Festival Nacional de Violino, que se pretende(ia) institucionalizar no concelho, não se realizou este ano. Ahh, sim... foi por causa da campanha! Em ano elitoral as baterias apontam para uma única direcção, pelo menos por cá. Enfim!!!

Hipótese

O ceu da minha ilha é estreito e tem montanhas. Será por isso que por lá (já) não passam aviões?!!!
Foto: Estritin (BCN)

12 Outubro 2008

E tudo Outubro levou

Recebi um e-mail com fotos das últimas chuvas caídas no dia 5 de Outubro em Santo Antão. Não sei quem as fez mas publico-as neste espaço.

Há quem diga que chuva igual em Santo Antão há mais de 30 anos não se via. De uns anos para cá o mês de Outubro tem sido pródigo em matéria de escorroço na ilha. Este ano as comportas abriram com veemência, o presidente da República interrompeu a visita que havia começado pela ilha; as festas de Nossa Senhora do Rosário tiveram que ser adiadas; as barracas já montadas foram-se por água abaixo. Abaixo também foram as obras das duas pontes sobre as ribeiras que circundam a vila, pontes que irão ligar Povoação à Ponta do Sol e Paul.
Muitos, sobretudo aqueles sem estudo nem canudo mas com experiência adquirida na escola da vida, já tinham previsto esta situação. Custaria esperar o dito mês de escorroço passsar para só depois começar as escavações? E lá se foram alguns troquitos (preciosos porque raros por aquelas bandas)


04 Outubro 2008

Um património com nome de boi, mas... sem força

Depois da tempestade...
Bem não sei se digo que vem a bonança. Prefiro apenas pensar que a Meteorologia esteja a prever dias menos zióg.
Não estou a falar de furacões, daqueles que nos chegam, felizmente só pela televisão, e vezes sem conta arrasam sobretudo países das Caraíbas e costa dos Estados Unidos. Refiro-me à tempestade de insensilidade que tem afectado o Farol Fontes Pereira de Melo, vulgo Farol de Boi, sito no Nordeste de Santo Antão. Costumo ser um indivíduo um bocado céptico, ou então um espécie de São Tomé que para crer precisa de ver, com os seus (próprios) olhos, naturalmente!
Por isso mantive sem euforias quando, na semana passada, via e ouvia o ministro das Infraestruturas e Transportes, Manuel Inocêncio, a anunciar na TCV que já existe, ou vão conceber (já não me recordo) um projecto para recuperar o já tão definhado Farol de Boi. E para dar corpo ao meu cepticismo fui revolver os meus arquivos e reler um apontamento sobre esse farol, da autoria de Rosendo Pires Ferreira, publicado na antiga revista Ekhos do Paul, ediçao nº 2, segundo trimestre de 1992.
O autor começa por fazer uma breve incursão pela história e escreve que o farol “foi mandado construir por Portaria Régia de 2 de Abril de 1884, para indicar a entrada do canal de Sao Vicente pelo Norte, iniciou a sua actividade a 15 de Maio de 1886, conforme AVISO DOS NAVEGANTES publicado no Boletim Oficial n17, de 17 de Abril desse longinquo ano”.

Note-se que em 1992, altura em que foi produzido o artigo, o farol já completava 106 anos de “ininterrupto funcionamento”, facto, aliás, assinalado pelo articulista.


O artigo prosegue a indicar o papel de “importância transcendente” que o farol “desempenhou na rota dos navios que cruzavam o Atlântico medio e particularmente nas rotas dos Sul e para as Américas”; lança um olhar sobre as características que fazem do Farol de Boi um “bem histórico-patrimonial” para, já na parte final, abordar o futuro dessa magnífica obra.
Ah, pois... é aqui onde eu queria chegar! Segundo Pires Ferreira, em Novembro de 1991, a AMIPAUL, em carta dirigida ao então Ministro da Educação, que também na altura tutelava a pasta da Cultura (...) “chamou a atenção do governo para esse Património Histórico Nacional (...) e solicitou o reconhecimento formal dessa qualidade”. Entretanto, fazia notar o autor, “mais de seis meses depois (...) nenhuma reacção oficial foi tornada pública a esse respeito”
Posteriormente, ao que parece, soube-se que a então Direcção-Geral da Marinha Mercante teria a pretensão de “transformara essas instalações num museu”, ideia que seria prontamente acarinhada pela AMIPAUL conforme faz notar Ferreira ao escrever que aquela Associação declarava “apoiar sem reservas a ideia”, ou então que “ela [a AMIPAUL] se prontificou a dar o seu apoio na busca de fontes de financiamento para a concretização dessa ideia.”
Vejamos: passam hoje 16 anos após este texto ter sido escrito e a situação mentém-se inalterável. Ou seja, nada foi feito para recuperar/preservar essa construção centenária e hoje o monumento está a cair de podre. O máximo que conseguiu foi ver as lentes da sua lanterna desactivadas e substituídas por modernas lentes à energia solar, instaladas ali mesmo nas imediações.
A última vez que lá estive foi em Agosto de 2007 e era triste constatar que já não se pode, com firmeza, subir as escadas metálicas da torre do farol porque há o perigo de haver uma derrocada. Igualmente triste é ver o estado em que se encontra a casa dos faroleiros, edifício contíguo ao farol, outrora com 8 divisões, hoje quase que não tem paredes interiores, nem cobertura.

Por tudo isso, tenho todos os motivos para manter a minha atitude céptica e esperar até o dia em que meus olhos me forçarem a acreditar que alguma coisa foi feita para recuperar o farol (se esse dia vier). Mas... há agora uma réstia de esperança e esta quem ma traz é a estrada Porto Novo / Janela que passa bem pertinho do farol. Aliás, foi na sequência de uma visita às obras dessa estrada que o ministro Manuel Inocêncio falou na intenção de se vir a fazer alguma coisa para recuperar o que ainda pode sobreviver do farol.
E todos sabem que, rentabilizando aquele espaço, pode-se aproveitar aquela fantástica vista que se tem sobre toda a costa Norte de Santo Antão, com o ilhéu dos Bois logo ali no sopé. (logo aqui ao lado, também)

Características gerais do Farol
Nome:
Farol Fontes Pereira de Melo
Localização: Pontinha de Janela, Noerdeste Santo Antão
Início Construção: 1884 (começou a funcionar em 15/05/1886
Torre: 10,7 m
Lanterna: 4,5 m, assente numa base metálica com 3 m de diâmetro
Alcance: 27 milhas

Fonte: FERREIRA, R.P, in Ekhos do Paul, Abril/Mai/Jun, pp 36,37,38

Há dois anos escrevia aqui o meu primeiro post sobre o farol. E se daqui há dois anos tivesse que publicar outro post a dar conta das obras de recuperaçã0?!! Mas prefiro deixar accionado o meu desconfiómetro até meus olhos ordenarem o contrário.

02 Outubro 2008

Vultos da Ilha

João Morais

Hoje, 2/10, completa o primeiro centenário do nascimento de João Baptista de Morais, mais um ilustre filho de Santo Antão. Para assinalar a efeméride a Direcção do Hospita Regional da ilha, que ostenta o nome desse grande médico, organiza hoje alguns eventos para relembrar o seu patrono. De entre as actividades destaca-se a apresentação do livro "Memórias de João Morais", por Pires Ferreia.

Mas, quem foi João Morais? Eis alguns dados bibliográficos:

"João Morais nasceu a 2 de Outubro de 1908, no Paul. Fez os estudos secundários no Liceu Infante D. Henrique, no Mindelo, formou-se em medicina na Universidade de Coimbra, em 1936, e fez ainda os cursos de Medicina Tropical em Lisboa (1937), de Medicina Sanitária em Coimbra (1941) e o curso de Malariologia (1955), como bolseiro da OMS, nos Camarões.
Trabalhou nas ilhas de Santo Antão, Santiago, Sal e São Vicente, foi professor de liceu, juiz substituto do tribunal de Sotavento, Vice-presidente da Câmara Municipal da Praia, e na vida associativa foi sócio da Associação Académica de Coimbra, presidente da Comissão Administrativa da Rádio Clube de Cabo Verde e depois do Grémio Recreativo do Mindelo.

JM Faleceu a 26 de Outubro de 1995 na cidade do Mindelo e nesse mesmo mês foi atribuído o seu nome (Dr. João Morais) ao Hospital da Vila da Ribeira Grande, inaugurado poucos dias depois da sua morte."

Fonte: Inforpress

29 Setembro 2008

100º Post

Este é o post nº 100 do Sinta10. Há cerca de dois meses de completar 3 anos, uma centena de postagens não constitui, certamente, motivo de celebrações. Com um ritmo bastante irregular e descomprometido, este canto vai esgrovetando como pode a sua ilha querida. Uma missão que, decididamente, não pensamos abandonar tão cedo, pese embora algumas hibernações sazonais.

17 Setembro 2008

Estritin

Esta é mais uma das maravilhas escondidas de Santo Antão.
O nome do recanto é Estritin (vamos traduzí-lo por Estreitinho). Fica situado nos confins da ribeira de Caibros, vale da Ribeira Grande. Depois de passar pelo povoado, infiltra-se pela ribeira adentro e ao fim de uns 20 minutos a subir... huf! que maravilha! Uma linda cascata, ladeada por montanhas que atingem o céu. A água da cascata é fresquinha e cristalina. Não se pode resistir e um mergulho torna-se imperativo. Mas as maravilhas são tantas! Mesmo ao lado da cascata, do lado esquerdo nasce uma outra água, esta totalmente diferente: de coloração alaranjada (férrea), deixa por onde passa um rasto multicolor. Nas grutas por onde escorre forma-se espantosos estalactites e estalagmites. Ao alcançar este esconderijo a adrenalina fica em alta. Um misto de encanto e medo invade o visitante que se assusta com o autoritarismo das rochas a nos escoltar com um olhar medonho de cima para baixo.
Uma descoberta verdadeiramente arrojada (ou o local não se chamasse Estritin e fosse mesmo inrrojód). Mais palavras p'ra quê? As imagens são soberanas.











Fotos: BCN

12 Setembro 2008

O vale, a chuva e o verde

... e porque será que o cabo-verdiano anseia tanto pela chuva? A minha Ribeira da Torre, que neste momento bem se poderia chamar Ribeira d'Água, já é tão linda sem chuva, ki fari go...


Fotos: BCN

10 Setembro 2008

O vale, o verde e a (falta de) estrada (II)

Para não variar, o meu vale voltou a ficar isolado. A chuva fez correr muita água e a indefesa estrada (?) de terra batida correu para o mar. Mas desta vez a vítima não foi apenas a rodovia. Árvores desabaram em cima dos cabos de electricidade e o vale ficou dias sem energia. Agora, dizem, o vale vai ter estrada asfaltada, uma espécie de cobra negra, como diz o Paulino, a desfilar lânguida por entre margens e encostas verdejantes do vale.
Realmente é algo estranho, ver uma cobra, ainda por cima pretona, a deambular pelo vale adentro. Cobras que, a existirem pelas bandas, só se forem minhocas ne tchon de bananeira.
Para complementar (re)leia este post

Linda

Acabo de regressar da ilha. A chuva disse lovód nome Déus, os campos estão pintados de verde, a terra tem agora outra cheiro e outra pinta. Vi cascatas, cachoeiras, aga na rbêra. Ah, minha ilha é linda, lindíssima. Sintanton, como te quero! quero-te tanto... assim como o Abrão quer Santiago! Ahhh, e és linda, muito linda, lindíssima.

01 Agosto 2008

Casta de cosa ê ess?

Acabo de ouvir isso na RCV, num despacho do jornalista Marco Rocha:
Duas cabo-verdianas em Portugal foram proíbidas, pela Junta de Freguesia de Benfica, arredores de Lisboa, de falarem crioulo no seu local de trabalho, por "perturbarem os colegas que nada entendem".
A medida foi prontamente contestada pelas visadas e pela Associação SOS Racismo que acham ser uma atitude xenófoba. A uma dessas meninas, inclusivê, já foi instaurado um processo disciplinar.
O autarca em causa contrapõe "argumentando" que já recebeu cerca de 5 queixas de colegas que nada entendem e, perturbadas, desconfiam que as moças possam estar a falar delas. Por isso, "a medida APENAS visa salvaguardar o bom ambiente no trabalho".
E se as moças estivessem a falar inglês? chinês, alemão???!!!!
Ulalá, já começo a ficar receoso: É que por cá, no meu trabalho, sempre que'm te ratchá nhe criol escferruntchent de Sintonton, muitos dizem não me entender. Estarei a perturbar alguém?!! Estou preocupado. (ah, qui nada moço, descansá, bo te ne bo terra)

Ponta do Sol, Pescadores e Cavala

Começa a vigorar a partir de hoje até 30 de Setembro próximo no país o período de defeso para a cavala preta. A medida faz parte de um conjunto de acções tendo em vista a “conservação e exploração racional dos recursos haliêuticos, em prol do desenvolvimento sutentável do sector das pescas”.
Apesar da medida pertencer a um pacote aprovado em 2005, portanto há já 3 anos, parece que muitos ainda não se consciencializaram do quanto é importante e necessário que haja um período interdito à pesca de certas espécies, quanto mais não seja para que as mesmas possam reproduzir-se “em paz” e garantir assim a continuidade da espécie.

É certo que qualquer medida restritiva do género tende a chocar com intereses económicos, sobretudo quando se trata das comunidades piscatórias que muitas vezes têm poucas alternativas de sobrevivência. No entanto, vista numa lógica de medio ou longo prazo, apercebe-se da utilidade de tais medidas.

A cavala é uma espécie bastante comum nos mares de Cabo Verde e, segundo o INDP, o cerco a essa espécie é ainda bastante expressivo nas comunidades de São Pedro (São Vicente), Palmeira (Sal) e Ponta do Sol (Santo Antão).
Ah, sim, Ponta do Sol! Falar de Ponta do Sol implica falar de pesca, implica falar, já agora, de cavala. Na região Norte da ilha não existem muitos ancoradouros de botes pelo que se pode dizer que a vila da Ponta de Sol se afigura como um grande bastião de pesca dessa região e, quiçá, de Santo Antão. Na vizinha vila da Ribeira Grande, não se pesca, pese embora situar-se a beira-mar. A propósito, abro um parentesis: há alguns anos, por altura do festival Sete Sóis Sete Luas, estava Tito Paris em palco, quando dedicou a música mar d’ilhéu “a todos os pecadores desta vila" (Ribeira Grande). E aqueles que estavam mais perto do palco gritaram em uníssono, ei e’n den pescador. O artista, apesar de parecer incrédulo, teve que reformular a dedicatória.

Mas voltando à vaca fria: é facil adivinhar o apuro dos pescadores da Ponta do Sol, neste período em que é proíbida a pesca da cavala. Arrisco mesmo a dizer, eu que não sou do litoral, que falar em pescado na Boca de Pistola (foto) quase que implica falar de cavala, caso contrário, hoje mar e’n dá pêxe. Mas a entrada hoje em vigor da medida, como sempre, não deixou os pescadores solpontenses indiferentes. Segundo o nosso HF, os mesmos estão chatiados porque a medida lhes apanhou de surpresa e reclamam porque deviam ser avisados com antecedência. (!!!???)

De qualquer forma todos devem empenhar-se no sentido de garantir o defeso dessa e outras espécies durante o período estipulado. Só assim poderemos garantir melhores dias para as gerações vindouras. Se medidas do tipo tivessem sido tomadas no passado em relação a outras espécies, talvez eu e meus colegas ainda tivéssemos conhecido na ilha esta espécie, por exemplo.
Saudosismos a parte, resta-nos desejar boas férias à cavala.

Obs: A cavala é tão popular pelas bandas da Ponta do Sol e zonas limítrofes que um dia nha Lurdes, lá de Selada, mandou o criado Ivanildo (moço lá de Ribeirinha Curta) ir comprar peixe no carro que vinha buzinando. Ivanildo chegou na viatura e ficou indeciso porque não viu “peixe”. Lá acabou por fazer a compra e regressando à casa rematou: "Nha Lourdes, mi’n otchá pêxe ma e’m trezê cavala”

19 Julho 2008

Burro na grelha

O burro sempre fez parte do quotidiano do camponês caboverdiano. De uma utilidade extrema, este animal revelou ser, ao longo dos tempos, um grande aliado dos habitantes das ilhas mais rurais de Cabo Verde, sobretudo como meio de trasnporte (de cargas como pasto, géneros alimentícios, cimento, areia, água, pessoas etc.)

Para se ter ideia da importância do elmara, há alguns anos este animal foi alvo de uma das propostas mais inusitadas vindas da classe política nacional. Um aspirante a autarquia da Boa Vista falou na possibilidade de exportar burro da Ilha das Dunas para outras paragens (Europa? América?)

Agora, os tempos são outros... a conjuntura é outra. Tud cosa já sbi, transportá gente ta cór, quanto mais burro. Mas não é que a proposta do então candidato pode vir a ganhar sentido. Já que burro agora ti ta bai pa grelha, quem sabe venha a surgir outras ideias, digamos mais requintadas, tipo: exportar burro... ENLATADO.

Este bla blá "asnento", diga-se, me ocorreu a propósito de um post de uma cabrera. A não perder Confira aqui.

18 Julho 2008

Vultos da ilha

Luis Romano
Nasceu a 10 de Junho de 1922, em Santo Antão. Estudou em São Vicente e trabalhou na sua juventude nas ilhas de São Nicolau e sal. Foi da sua vivência nestas ilhas, nos anos de fome e Fascismo, que se inspirou para escrever o célebre romance Famintos, publicado no início dos anos 60.

Coincidentemente, Luis Romano e Januário Leite nasceram no mesmo dia - 10 de Junho (dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas)
Luis Romano ainda é vivo e reside em Natal, Brasil, desde 1962.

Símbolo
O formato daquele berço foi um símbolo
O menino em miragens impossíveis
dormia sonhando com navios de papel
enquanto eu contemplava
a cismar,
o conjunto daquela harmonia
sumindo-se na linha do mar.

Navio-berço de menino crioulo
navio-guia que ficou sem ir"
navio idêntico ao navio da nossa derrota parada".

(Luis Romano, Clima, 1963)

04 Julho 2008

Queijo

Ao referir, no post anterior, à "casca" de queijo lembrei-me das farras que fazíamos na ilha: queijo com pão, comprado lá na casa de Nha Guida. As quartas-feiras aguardávamos ansiosos a chegada da senhora que ia à Lagoa abastecer de queijo fresquinho para depois comprarmos a 120 escudos unidade.

Hoje o cenário está mais complicado. Chuva escasseia-se, pasto nada, queijo nem vê-lo, ou se há, o preço dispara. O cenário é tão desolador que a fábrica de queijo de Porto Novo teve mesmo que interromper a actividade, como se relata aqui.
Ontem a chuva falou mantenha. Oxalá seja o prenúncio de um bom ano agrícola para que possamos ter pasto à-vontade e queijo inguêrrnel, quanto mais não seja para não voltarmos a contar estórias como esta.

03 Julho 2008

VIVA QUEL VIM (Memórias de escola primária)

Retomando aqui as memórias que vieram à tona através dos comentários de alguns leitores (Mnininha de Puvoçon, Boltchor, Vera...) sobre o saudoso "viva quel vim"... ´

Era a meta que todos auguravam alcançar: transitar de classe para poder integrar a comitiva que no dia x sairia de porta em porta à cata de quel bolo, quel pipoca, quel torresma. Por isso era imperativo estudar e aprender a lição porque, caso contrário, bo'n dava passá, logo bo'n dav dá viva, logo bo tava fcá sem quel fétin novo.
O empenho era (quase) total. Todos queriam estar na mesa do exame a encarar os dois professores. E aqueles que fossem "cabeça dura" eram-lhes pedidido que sentassem em casa semanas antes do exame (coitados, ficavam retidos no crivo da sebatina: tabuada (8 X 7 = ???), gramática, Meio Físico e Social...
Aqueles que ficassem "apurados" morriam de ansiedade e a conversa era outra: quem que ti te bé inzemnób? É Dona Joana. uhau, ela é ménsinha! E'n ne nada, é senhor Antão, onhémén, el é mau!

No dia do exame: cólê texto que bo dá? mim e'm escolhê "A chuva amiga" e bo? Mim foi professora que escolhe'm nhe texto, e'm dá "Maravilhas do Mar. E bô? mim e'm escolhê "O cabritinho Obediente". Uahh, quel texto lá é sébim, mim e'm te elel etê de cor: (...) conta-se que um dia a mamâ cabra antes de sair da casa disse ao cabritinho: - fecha a porta com a tranca e não abra a ninguém!
Djon, cuitód, ele reprová ne mesa de exame. Quel lá gora é triste.

Ninguém queria ter, em Julho, um desfecho tão trágico. Por isso, a preparação começava desde Outubro do ano anterior e todos os detalhes eram levados em conta. Outros, desconfiados e supersticiosos, apostavam em plantinhas com tendências visionárias: pegavam nas folhinhas de uma planta, que agora me escapa o nome, e colocavam no meio do caderno. Se esta murchasse, hum, mau sinal! Mas, se ao contrário, permanecesse viva, hey... bons ventos.!!
Mas também era expressamente proíbido comer "casca" de queixo porque, de um potencial triunfador, poderíamos ir para o banco dos "cabeça dura". Afinal, as vitórias conquistam-se com muito trabalho e as vezes um pormenor é importante, hehehe. Não fôssemos transformar no fim do ano numa "raposa" devido a uma simples manhenteza como uma raspa de queijo, Deus defendê!

Tive a sorte de Dá viva ao longo dos quatro anos de escola primária. Assim que terminei a 4ª classe, em 1994, extinguiu-se, com a Reforma, o Viva quel vim. E morreu parte do encanto que envolvia todo o ensino primário. E nunca mais se ouviu cantar: manzinha dzê, quem fcá roposa, ali ca ta entrá! purrli? purrlá, 4ª classe ca brincadêra.

30 Junho 2008

Vultos da Ilha

Sinta10 começa hoje uma nova rubrica que pretende (apenas) lembrar os grandes homens que se brotaram da ilha. Este primeiro post é dedicado ao poeta Januário Leite (este nome foi muito evocado nas últimas semanas por causa do caso que se estoirou no liceu que tem seu nome). Mas aqui a nossa música é outra. E a escola também... já agora!

Escola à antiga (soneto de Januário Leite)

Os óculos no nariz, bem cimentado
por densa massa de rapé imundo,
o rosto ora boçal, ora jocundo,
de tímidas crianças rodeado,

antigo professor está sentado
no meio dum silêncio o mais profundo,
solene aspecto - de aterrar o mundo,
pesada palmatória sempre ao lado.

A lição é de história. Já casmurro,
o mestre puxa a caixa de rapé.
O aluno lê: Dom Pedro quinto...um murro!

A tosca mesa abala!...o aluno em pé
encara o mestre...Que disseste, burro?
D...Pedro... V!...- D. Pedro V é que é!...

Januário Leite nasceu na Vila da Pombas, Paul, a 10 de Junho de 1867. O destino quis que morresse exactamente no dia do seu aniversários, isto é, a 10 de Junho de 1930. Autoditacta, esse grande poeta foi também, por algum tempo, professor primário e faroleiro em São Vicente.

16 Junho 2008

PAXANHA

O mês de Junho é simbólico para Santo Antão. É festa... só festa que começa no dia 13 no Paul e termina em Châ d'Igreja no dia 29. É o mês em que se começa a preparar as sementeiras e esperar pelas chuvas. Os espíritos da ilha estão mais alegres, o humor sobe de tom...
Aproveitando esta onda, Sinta10 traz mais pirraça contada pelo meu irmão Jair. Mais uma vez , embora com a devida vénia, Djédjin, vou recomendando "nhó boca ca está lá"

Sinto-me saudades da minha Ribeira da Torre – da sua aura fresca que nos suaviza, das suas frutas (banana, papaia, manga, goiaba, abacate,) que se comem abundantemente, das peladas no campo de lugar de Guene, das farras debaixo das mangueiras, das menininhas bonitinhas, das gentes bem-humoradas…enfim, saudades de todas as coisas salutares que por lá abundam.
Ai-ai! De momento, não é este o meu propósito, estar a enumerar um ror das boas coisas que me faz saudoso da ilha, do meu berço Ribeira da Torre, mas sabe é impossível não sentir saudades. O meu objectivo, por ora, é compartilhar contigo, amigo leitor, as estórias divertidas - “as boas alegrias merecem partilha”, não é?
No descanso das horas vagas, geralmente depois do almoço, recordo-me das estórias e das invenções das gentes bem-humoradas da ilha. Hoje, as peripécias e as invenções de Paxanha resolveram invadir o meu pensamento. Esta personagem é apenas uma das muitas figuras notáveis no engenho de pirraças, gaiato, com um senso de humor deveras fora do comum.
Paxanha, homenzarrão de lá de Cabouco de Peregrinas, alto claro com uns bons 90/100kg - um texugo, bebedor do seu grogue como um bom santantonense, bom garfo - ainda bem, porque se não os muitos copos já o tinham mirrado o corpanzil que ostenta – pois é, Paxanha é um exímio voraz. Certo dia, na altura das sementeiras, fomos ao Lombo de Santa cumprir a missão de todos os anos - enterrar o milho, ainda que na terra ressequida, e esperar pela graça de Deus. Levamos da fértil Ribeira da Torre, mandioca, banana verde, fruta-pão, feijão ervilha seco, toucinho e demais ingredientes necessários à uma feijoada que faz delícias ao estômago. Uma senhora de lá de Lombo de Santa, muito meiga e amiga do meu pai era a encarregada de nos preparar aquele banquete – almoço feito para nove enxadeiros, mas que sobrava para alimentar Lombo de Santa inteiro, se não fosse o ímpeto destruidor deste homem - Paxanha COOOOOMEEEEEU, até que não conseguiu levantar, ficou prostrado debaixo da afável mangueira que nos serviu de sombra, não mais conseguir dar um kova de milho - um trabalhador perdido pelo resto do dia. Era um gozo, em uníssono nos tud tava dzé – "kmida kmê Paxanha", este nem nos dava ouvidos.
Como um notável comedor, ele também é um devorador de grogue. Um dia, ele panhá um fuska lá no Stakay que ficou completamente bragundo, pior que Frénk du Pi depois daquela krascada em o Rabo da Bruxa, lembra? No regresso à casa, a meio caminho, entrou num curral onde criava umas cabeças de cabras. A julgar ser este a sua casa, entrou sorrateiramente, ainda que aos tombos e deitou junto à uma cabra. Após algum tempo, a carente cabrinha enrosca no nosso perdido, este crendo ser a sua verdadeira companheira do lar, sussurra – "Méria txgá pralá, bô ti te ingôtxém!!"
Paxanha é deveras uma personagem versátil. É capaz de tudo um pouco. Este facto que te vou contar é assunto sério, por favor não gracejas, o meu pai merece todo o respeito, homem honesto e trabalhador de lá de Ribeirinha de Jorge, respeitador e respeitado por todos, palavra de honra! Só Paxanha, para brincar com coisas sérias. Não enfadonhas, amigo leitor, conto já a brincadeira de mau gosto, tramado pelo nosso gordo insolente PAXANHA. Num dia infeliz, meu pai teve a má sorte de cair de um pé de fruta-pão duma altura de pelo menos cinco metros, (os ramos desta árvore não são muito fortes, quanto menos, quando estão prenhes de frutas, o ramo desprendeu e pumba), como deves calcular meu mestre não ficou com o corpo sadio, apanhou muitas pancadas, sobretudo nas costas, quem o melhorou foi um daqueles curadores natos de lá da ilha do Chiquinho, já não me lembro o nome deste bendito homem, alto, magro, meio desengonçado, cabelos ruivos – um sueco. Através de um método incrível, ele conseguiu tirar ao meu pai vários hematomas – sangue pisado nas suas costas que o atormentava.
Passado algum tempo do incidente, o maldito Paxanha inventou e perguntou o seguinte ao meu pai – "ó Maika, bô fi David dzé kma bô kei dun asa dun avião?" Brincadeira de mau gosto, papá optou pelo silêncio a pensar como é que um filho foi capaz de dizer tamanha asneira. Quando chegou em casa confessou isto à minha mãe – esta que conhece muito bem os filhos que educou e também as diabruras de Paxanha, de pronta negou que o bom David fosse capaz de dizer tal disparate, categoricamente afirmou ser invenção de Paxanha. Meu pai não se convenceu e ficou mesmo com raiva do inocente filho. Certo dia, minha mãe, a zelar para o bem-estar do lar, encontrou o nosso visado e teve que lhe perguntar se deveras David lho disse que Martim tinha caído de uma asa de avião. Paxanha com ar de sonso respondeu – "amoje kondera, foi binkedera minha ôme, kome, Maika kerditá?" Minha mãe pediu-lhe então que fosse desenganá-lo porque anda convencido que foi da boca do coitado David que saiu a maldita frase e por isso anda descontente com ele, muito descontente.
Paxanha felizmente aceitou o pedido e numa ocasião convenceu o meu mestre que tal brincadeira foi invento seu. Paxaaaanha! E agora papá que lição? Confie sempre na sua família, porque ela é guardiã, está bem?

13 Junho 2008

Santo António

Hoje é dia de Santo António. Hoje Paúl está em festa. Hoje há tambores, há missa, há procissão, há apitos, há bailes nos terraços e nas boites e, sobretudo, há bebêdêra... sim porque os santos tornaram-se todos pagãos!

Hoje lembrei-me de António de Chica com a sua Baiana (quel tamboron), de Jorge Ciric, de Jorge kêremba, de Bétchinha de Nhe Djoni, de Luciano Chantre... todos outrora, ou ainda, exímios tocadores de tambor. Mas lembrei-me também do Tutú de Selada com o seu navio. Ah, essa figura que tantas saudades deixou, ele e as suas pirraças! Essa figura especialista em diversas artes, por exemplo, em chorar os mortos. A este propósito, um dia Tutu chorava amargamente a morte de um ancião de uma das zonas de Ribeira da Torre, enquanto ultimavam os preparativos para se sair com o enterro. A determinada altura solta um "berro" profundo e demorado e quando termina a choradeira murmurou baixinho: até que emfim já bo rancá, desgróçod!!? Só que o murmúrio saiu tão alto que todos que estavam próximo ouviram.

Hahah, nessa divagação toda acabei por esquecer que estava a escrever sobre festa de Santo António. E, pior, acabei por levantar a alma do coitado Tutú.

27 Maio 2008

Memórias de Puvoçon


Puvoçon (vila da Ribeira Grande) é onde estudei todo o secundário e resto do primário, isto depois de ter deixado, ao término da 3ª classe, a escola nº 9 de Lugar de Guene.

Da fresquinha casa, cuja cobertura de palha servia de ninho às galinhas (mas não era essa a escola do Póline), fui para a Escola Central, mais tarde batizada Escola Roberto Duarte Silva. O ambiente era diferente: muitas crianças, muitos professores, meninos com ares citadinos a contrastar com nós os "provincianos". Por isso, não raras vezes éramos gozados: "bsot ê de cómp", bsot ê uns cmê ovo", o que ocasionalmente culminava em brigas, tornos de pescoço ou socos.

"Bsot ê de cabeço, de cómp..." diziam. E nós : "Bsot te morá num côtche" (isto, numa alusão à orografia da vila. É que, circundada por montes, a urbe fica no meio dessas rochas o que nos levava a estabelecer uma analogia, bem depreciativa, com o cotche, recipiente esculpido em pedra/rocha e que serve de "prato" aos porcos.

A criatividade de uns e de outros ia buscando novas metáforas para qualificar o outro lado, consoante a proveniência. Eram tantas criações, mas dessa não me esqueço:

Certo dia, um coleguinha meu, bem busód, respondendo à uma das provocações de um menino de Puvoçon que zombava da sua proveniência, saiu com esta: "lembrá ei (a vila) ê único lugar que te ixisti, ondê que defunto ê que te fcá de cima de gente vive". Levantando o olhar em direcção ao cemitério do Alto de Sâo Miguel, que fica bem lá no alto (canto superior direito da foto), o busód soltou uma gargalhada ao mesmo tempo que desatava a correr, enquanto o interlocutor permanecia pensativo, talvez em busca de uma réplica que pudesse estar à altura.

21 Maio 2008

PIRRAÇAS ... made in Sinta10

Depois de um período de abstinência (ou será abstenção?) Sinta10 regressa, desta vez com uma pirraça aqui contada pelo meu irmão Jair . Como diria o outro, "nha boca ca está lá"!
Ei-lá:
Falha na avaria
Ribeira da Torre sempre foi um lugar que recebe gentes de várias proveniências, (de Figueiras, de Jorge Luís, de Santa Isabel, de entre outras), lugares onde a vida é mais difícil, dado ao isolamento, pouca oportunidade de trabalho, à pobreza, etc. etc. Para quem não sabe, Ribeira da Torre, é um dos profundos vales de Santo Antão, pertencente ao concelho da Ribeira Grande. Caracteriza-se pelo verde copioso (que se estende em toda a sua dimensão) em virtude da abundância de água, um dos melhores geradores de banana em Cabo-Verde, produz muita cana para o fabrico do “famoso grogue”, muita fruta-pão, enfim, goza de grande riqueza e diversidade de produtos – há muito labor agrícola durante todo o ano, daí a justificação para a sua procura em busca de um dia de trabalho e uma vida que seja um pouco mais "eskéntxin e contente".

Ribeirinha de Jorge, particularmente, tem recebido algumas dessas pessoas, lembro-me do Fabal, do Pé de Rót, do Pé de Aranha, (estes numinhos são-lhes postos pelos rapazes buzód da zona), do Nelson e do Meteje de Deolinda, do Péd Cabeça, entre outras figuras que de certo modo alegravam e alegrem a zona com as suas peripécias, cada um a sua maneira.
Essa é boa, atente-se amigo leitor, é do Fabal.
Um belo dia este rapaz de Figueiras, magro, de estatura média, semblante sempre preocupado, “cabistonto” como diria o Mia, encontrava-se muito aflito, pois que o seu rádiozinho deixara de funcionar. Na sua aflição, passava ao redor da sua casa o Amílcar de Rozére – Mizguin, que lhe perguntou a razão daquela apoquentação. Em jeito de queixume, respondia o Fabal – moço eme tava ei te interté que nhé rédiin, de repente el txá de toká. Mine sebe u ke keme te fezé, jame ebril ma mine sebe dondé kel falha está.
Mizguin, responde-lhe com ar muito sério de quem desejava ajudá-lo na resolução do seu problema – rapaaaajje, kel falha deve estód nekel veria, ebril bo xpiá. Fabal, arreliado disse – ó repéz, go bo ti te ben dzeme kese falha está nese veria, se jáme ebril eme xpiel, el te drete? Mizguin, pertinaz, insiste – jame dzéb ke kel falha está ne kel veria! Kondé ne vida bo kunsé veria dun rádio…vinde de lá dekeje konpe de Fguéra? Se kel veria tivese drét, rádio tava te toká dritin!
Fabal, arreliado como um cão raivoso, explode - bzôt de Rbera do Tore bzôt tem menia de da pe xperte ma nada bzôt sebé, apoje ese véria te méje dret ke bo kebeça, esse falha deve estód note koza ke nen ne véria, ke ese veria te dritin!

Merci, Djédjin

06 Maio 2008

Esgrovét

Na sua missão de tentá esgrovetá Sintédez de lés a lés, hoje Sinta10 desenterra (literalmente) um leão que jaze algures na Vila das Pombas, Paul. Esta imagem que conta já décadas de existência, foi resgatada da saudosa Ekhos do Paul, revista trimestral editada em Santo Antão nos inícios dos anos 90.

Eis o texto que acompanha a fotografia:

"A natureza tem coisas curiosas. Pena é que nem sempre se lhes da o devido valor. Este leão (ver foto), petrificado, em posição de guarda e de vigilia perene do ancoradouro do Paço e que sobreviveu a séculos de fustigante mar bravio e do vento de nordeste, foi soterrado, em 1990, com os trabalhos de terraplanagem do novo campo de futebol na zona de -Antonio Soare, no Paul. Fica, no entanto, a
imagem para a posteridade. Ou será que ainda é possivel a sua recuperação? E se os jovens fossem lá tirar a prova, com o apoio, é claro, do Município?"

In Revista Ekhos do Paul, nº 2, Abr/Mai/Jun 1992, pág 46

Foto: Rosendo Pires Ferreira (RPF)

29 Abril 2008

150 anos da Praia com olhar sampadjud

Hoje, Sinta10 contorna um pouco a sua linha editorial, assente em esgrovetá Santo Antão de lés a lés, para escrever duas linhas sobre a Cidade da Praia, que completa 150 anos.


Cheguei à Praia em Outubro de 2002. Na altura a cidade tinha 144 anos. Cedo interessei-me por conhecer melhor a capital do país, andei muito a pé, conheci pessoas de diversas proveniências, fiz solilóquios junto ao mar (como aquele nosso poeta) ; quis partir mesmo sabendo que tinha que ficar; enfim tive mil sentimentos. Aprendi a amar a cidade, e hoje, depois do meu Sinta10, aqui é onde mais gosto de estar.
Aprecio o que de bom a Praia tem para oferecer aos habitantes e, embora possa parecer pouco, a Praia tem muitos encantos.
- A nadar já fui duas vezes ao Ilhéu de Santa Maria (que bom! de certeza que lá irei mais vezes)

- Fui muitas vezes de manhã à Quebra Canela (há muito que não vou, não sei bem porquê, mas adoro a praia)

- Vou à tardinha ao Plateau e curto sem manhã a azáfama que inunda as principais ruas do bairro (mesma coisa observo no Sucupira)

- Enfim, coisas aparentemente banais... (mas tenho a mania de querer ver tudo em quase nada)

Gosto da cidade... e nestes 6 anos de convivência com a velhinha (?) que agora faz 150 anos, já aprendi muito. Sim porque gosto de escutá-la, apreciar o seu semblante, conviver com ela... Parabéns à Cidade da Praia
Foto: expressodasilhas.cv

22 Abril 2008

Contos e factos

Nasci gósterdia! Não encontrei nada, não cheguei a ver nada, mas ouvi (e oiço) muita coisa. Adoro sentar com os velhos da ilha e escutar as histórias dos anos da sua juventude. Vivências e peripécias da década de 30, 40, 50... me fascinam!
A Sova
(contingências de um castigo precoce, entretanto não consumado)

João Bento, 13 de Dezembro 1945

“Estou indo para a Ribeira, para não ter filho de Antonin, nem de casado, nem de solteiro, para não danar a minha família”



Esta foi a resposta que a Dona Mariana deu ao seu pai quando se viu obrigada a apresentar uma justificativa para a sua largada de João Bento, zona algures no interior do concelho do Porto Novo. O Senhor João Martinho, pai da Dona Mariana, era um homem desaforado e pouco dado a conversas. Nunca se predispunha a ouvir explicações antes de aplicar uma sova de chicote com vara de marmelo a um filho. Desta vez, rompendo um pouco com o hábito, chamou a filha e, com um olhar fixo numa parede, pediu-lhe explicações acerca daquilo que momentos antes ouvira da boca de vizinhos: a Mariana estava de partida para Ribeira, onde passaria a residir, deixando assim o Cómp de Porto.
Ouvida a explicação, Nhô João Martinho calou-se. Por longos minutos pai e filha permaneceram em silêncio, sem se olharem um para o outro. O olhar de João Martinho continuava fito na parede, enquanto Mariana não se levantava a cara do chão.
De repente o pai quebra o silêncio e com uma voz forte e acusadora disse: - sai da minha presença… afinal não é o que queres?
Mariana saiu pé ante pé, tão devagar que parecia recear uma investida do próprio solo que pisava, contra ela. A partida para a Ribeira devia acontecer dentro de três dias, num sábado. Por isso, até a largada, Mariana não queria que houvesse mais motivos para alimentar a ira do pai.
Como que a querer aliviar um pouco o peso da consciência, Mariana pegou num balaio e caminhou em direcção à Merada de Ladeirinha, à cata de feijão.
Estava-se no mês de Dezembro, ainda não havia muita produção, e a apanha de feijão era um processo demorado, já que se ia apalpando e escolhendo as vagens cheias das que ainda deviam permanecer na mãe.
A Mariana tinha deixado em casa o filho de 1 ano e 11 meses. Já passava do meio-dia e ainda não tinha regressado à casa. O pequeno Joãozinho não parava de chorar. A dona Gertrudes, mãe da Mariana, acalentava-o mas sem efeito. Cada vez o petiz chorava com maior intensidade e não dava sinais de querer interromper essa sua tarefa.
Há três metros de distância Nhô João Martinho encontrava-se sentado na soleira de uma portinha que dava para uma despensa contígua à uma cozinha em estilo funco, onde se preparava os matares-de-injú. De pernas esticadas, preparava algumas gavelas de cordas de carrapato para uma amarração de palha de milho que tinha agendado para o dia seguinte com alguns trabalhadores em Fajânzinha de Trás, uma merada algures em Ribeira dos Bodes. Concentrado no seu afazer, João Martinho parecia não estar a ouvir aquele choramingar do neto. Ou então, se ouvia, não esboçava nenhum sinal que denotasse alguma perturbação causada pelo nhéc nhéc nhéc ininterrupto do pequeno. Enquanto permanecia pachorrento na sua tarefa, a esposa, com uma calma impressionante, ia fazendo de tudo para que o netinho parasse de chorar, sem entretanto conseguir os seus intentos.
De repente, o estado das coisas muda. Nho João Martinho, que até então tinha se mantido no seu canto, levanta-se com fúria e dá duas voltas pelo corredor. Pela forma como o fez, adivinhava-se que algo pouco simpático estaria prestes a sair das entranhas do velho. E depressa se confirmou a suspeição. Ao fim da terceira volta pelo corredor, o homem lançou um forte suspiro, que as suas narinas pareceram soltar fumo qual turbinas de um trem movido à carvão. Dona Gertrudes, que bem conhecia os sinais do seu marido, começou a ficar tensa: - “Meu Deus, este homem já não está bem, o que é que ele estará a pensar, hein?” – suspirou Gertrudes.
E mal a mulher formulou o seu raciocínio, nho João Martinho sentenciou: “Dá-me cá esta merdinha, vou ver se comigo ele não pára com esta berraria”. E sem coragem de se opôr à ordem do marido, Gertrudes entregou-lhe o neto e correu para dentro da casa para fazer orações. Mas de nada iria valer as preces da mulher. João Martinho pega no pequeno chorão, leva-o para o cume de uma parede, ata-o as perninhas com uma das mãos e dependura-o de cabeça para baixo. Xpundród qual cabrito prestes a ser pêrrnód, o menino intensifica a berraria, fazendo lembrar os últimos instantes da vida de um pequeno capóde quando solta os apertados berros por entre a corda de piadura e a faca do matador. Entretanto, no exacto momento em que João Martinho se prepara para aplicar a primeira chicotada ao menino, Mariana surge em frente ao corredor com o seu saco de feijão à cabeça. Desesperada, larga a carga e grita em alvoroço: - “se o senhor vai fazer aquilo ao meu filho, é melhor que o deixe e faça comigo tudo o que quer fazer com ele.” À súplica da mãe, o velho ripostou: - “na verdade, é contigo que eu faço isso”. Mas a aflição de Mariana deve ter trazido à lembrança do velho a história da legítima mãe no Julgamento de Salomão. Sem soltar mais qualquer palavra, João Martinho largou o chicote e entregou o filho à progenitora, retomando, de seguida, a tarefa que havia interrompido.
Enquanto isso, Mariana, sentindo-se ameaçada com a ira do pai, arrumou de pronto os seus parcos pertences, meteu-nos numa pequena maleta que a sua madrinha lhe tinha oferecido e abandonou a casa dos pais. Foi então morar numa pequena casinha da sua prima, há três quilómetros de distância, numa zona chamada Chã Vermelho. E ali permaneceu com o filhinho até ao momento da sua largada para Ribeira, o que viria a acontecer três dias depois.
Mariana acabaria então por deixar o Cómp de Porto com uma justificação mais forte do que aquela que sustentara quando fora instada pelo pai a justificar a sua decisão de mudar de região. O “partir para Ribeira para não ter filho de Antonin”, de quem se dizia ser bruxo, dava lugar à uma espécie de obrigação em se retirar por ver a integridade física dela e do seu bebé ameaçadas após a atitude do pai.

to be continued...

19 Abril 2008

Dia dos monumentos e sítios - um olhar diferente

Ontem era dia dos monumentos e sítios. Há dois anos, por esta ocasião, lançava um olhar sobre Alcatraz. Este ano fui até o meu sinta10 escolher a estrada Porto Novo-Ribeira Grande. Para mim a obra é um autêntico monumento edificado por dezenas de herois anónimos que, de cordas amarradas à cintura iam escrepando rochas, pondo a vida em risco. Até ainda custa-me entender como esses herois, que não tiveram direito à bustos, conseguiram abrir o Delguédin

12 Abril 2008

Bananas (de borla)

A desventura do Paulino em ter pago em Assomada 700 paus para meia dúzia de bananas dá que pensar. Tentando compreender como foi possível chegar à simpática soma, fiz muitos cálculos mas fiquei QO. Então, dei duas voltas à cabeça e fui vasculhar as minhas vivências em Santo Antão, marcadas por uma relação muito próxima com a banana, desde o plantio, a rega, a limpeza, o corte (colheita), o transporte e, claro a devoração do fruto.
Lembrei-me daquelas "impolas" na palma das mãos quando perfurava-mos os buracos para meter as "herdeiras"; dos fusos insuportáveis que vinham dos nabos (caule apodrecido da bananeira) que cortávamos para tapar buzil e interrnôdor no momento da rega (nota-se que horas depois éramos nós a gerar esses fusos - meu irmão David tornou-se especialista nesta "arte"); das picadas insuportáveis das centopeias que quase sempre se encontravam no meio desses nabos; daquela chatice em carregar os cachos, com o receio de ficarmos com a nossa vestimenta pintada de nódoas; dos concursos a ver quem conseguia comer mais bananas em menos tempo...
Pois é, por altura do verão, com o calor as bananeiras produzem mais e as bananas começam a amadurecer mais depressa. Nas hortas encontrávamos cachos maduros, com pardais ta engordá na banana e nós, convivendo com estes pequenos concorrentes na descontra, íamos fazendo as nossas farras.
São muitas as espécies desse fruto: banana anã: vão para São Vicente às carradas e eram aquelas que mais comíamos; banana santoma (de São Tomé): mais cara que a anterior, era para "ramos" e vendas pontuais; banana prata: sobretudo para encomendas; banana macho: para comer frita; banana rôcha: para comer em família, porque rara... Enfim, outras como gigante, inglesa, etc. logo se via o que fazer com cada indana.
Bem não sei que espécie terá o Paulino comido. Se for anã... não sei que zer; se for Prata, talvez a bananas fossem literalmente de prata; se for santoma, talvez por ser muito rara aqui em Santiago; se for macho, talvez cada unidade pesasse um kilograma; se for rôcha, talvez devido à sua beleza. Se forem outras espécies.... heh, tá difícil continuar...
Fotos: banana rôcha de Ribeira da Torre (por BCN)

02 Abril 2008

FIGURAS DA ILHA - Ménél Brôco

Os textos do Boltchôr aqui no seu blog me têm feito lembrar algumas peripécias de personagens castiças da ilha. Hoje, lembrei-me do Ménel Bróc, lá de Selada de Ribeirinha de Jorge. Cuitód, el e'mrrê vítima de atropelamento, em circunstâncias muito estranhas e nunca clarificadas (Déus te dél um descónse ne sê alma)
Ménel era Brôc, l'en dava uvi nada, nada, nada, gent tava falá ma el era sô k gesto. Um dia el tava te dtchê ne tchida de Selada e el incontrá dôs mlhêr ne ses conversa. El pará, el cumprimentés e el fcá la pósmód um bquédin. Possód uns moment, el voltá pê ês el dzê, cum ar incmodód:
- "Bem, mim já bé te dtchê, bsot te ne bsot segréd, més log bsot t'uvil lá drriba, bsot e'n de bé dzê quê mim k já léstrél"
Caramba, como seria possível Ménél lastrá quel segréd se el era brôc?!!! Bsot dzê'm

31 Março 2008

Saúde p'Antónia d'Aninha

Nha Antónia d'Aninha acaba de dar à estampa o Cd "Boxon", um trabalho que vem resgatar uma das tradições da ilha, infelizmente em queda livre: o "b'tá saude", outrora indispensável em algumas cerimónias, sobretudo casamentos. Com 76 anos, esta mulher é ainda das poucas que existem na ilha e que mantém acesa esta tradição. Nha Da Cruz Naça, lá da Ribeirinha de Jorge, era outro vulto nesta prática, mas infelizmente faleceu há dois anos. Para a posteridade apenas ficaram memórias. Felizmente, no caso de Nha Antónia, há agora este registo para as gerações vindouras! Ó saúd pe Déninha.. oooolélélélééé

27 Março 2008

Blog daquel bom

Também estou com aqueles que reconhecem muita dificuldade em fazer a escolha de 2 blogs daquel bom made in CV. Em cada blog CV encontro posts que me interessam bastante, sendo que alguns me prendem.
Entretanto, como forma de fintar a dificuldade, nesta minha escolha guio-me apenas pelo critério da afinidade e parentesco
1 - blog do Paulino - por o considerar uma espécie de prolongamento (mais erudito) do meu sinta10
2 - Bem dzid - mais uma ala (terra terra) da ilha; uma viagem pelos encantos do meu dialecto profundo.

19 Março 2008

Coisas boas da vida

Respondendo ao desafio lançado novamente pelo Paulino aqui...

Na madrugada do passado dia 21 de Fevereiro registei estas imagens do eclipse da lua. Era por volta da 01: 45 quando, com três colegas, estava eu deitado no terraço da casa, de olhos para o ceu a captar estas imagens. No meio de um silêncio profundo, só se se ouvia de quanto em vez o latir de um cão que soava fundo. Foi uma experiência indescritível, assistir a uma das maravilhas da Natureza. Enfim, uma das coisas boas da vida, aprentemente insignificante que, só assistindo se poderá sentir quão impressionante é este mundo!!!

18 Março 2008

Um vôo para Santo Antão

O incidente que envolveu Jorge Santos e José Maria Neves, por altura da inauguração do Santantão Art Resort terá surgido tendo como pano de fundo a questão do possível novo aeroporto para Santo Antão. A ilha, que já não se recorda da forma de um aviunzin como certo dia escrevemos aqui, em materia de aeroportos por enquanto apenas serve de palco para incidente. Agora, não seria bonito que esse quiproquo fosse ultrapassado no dia da inauguração de um aeroporto em Santo Antão? Estou a imaginar o JMN e o JS no vôo inaugural sentados lado a lado em amena cavaqueira, momentos antes da aterragem do avião:
JMN - "Anton, Tchoriss, bu ta lembra di quel dia qui bu tchoma'n 'mentiroso' li na Porto Novo, precisamenti por causa di aeroporto?
JS - Adé Zemas, inda bo ti te lembrá dess cosa? Aquilo já é passód, moss!! Gora ê so voá...
JMN - bu ten razon! E ..hoji cuzê qui ta sai?
JS - Um groguin lá de Coculi, queijo de Lagoa, pontche de Paúl... ó zemas bo tinha dzid que, pa nôs, Aeroporto não era prioridade, mas hoje e'm te dzê que prioridade é festa, heheheh
OBS: Os dois protagonista não não estão na política activa

12 Março 2008

Inauguração do Santantão Art Resort

THE DAY AFTER clicar na imagem para ver melhor

07 Março 2008

24 anos de Marcha

Em 1984 nascia em Porto Novo o grupo teatral "Juventude em Marcha". O agrupamento depressa se tornou popular devido à qualidade das suas peças, prenhes de humor, criatividade e muito trabalho de campo.
Hoje, o Juventude em Marcha é sem dúvida um dos grupos teatrais mais populares de Cabo Verde e a isso se deve, em muito, a qualidade dos seus actores, em especial o César Lélis e o Jorge Martins. Ao longo desta caminhada de 24 anos o grupo enfrentou várias dificuldades, mas conseguiu sempre superá-las a ponto de estar hoje "com os pés bem fincados na terra". O carácter popular das suas peças faz com que qualquer espectáculo do grupo esteja repleto de pessoas, o que é sempre uma boa motivação. Aliás o João Branco dizia ontem na RCV que no teatro há um triângulo em que num vértice estão os actores, noutro está a estória e no terceiro o público. E realmente o público tem sido um aliado importantíssimo para o Juventude em Marcha (lembro-me de uma vez quando o grupo veio apresentar "O Preço de um Contrabando" no Auditório Nacional, mais de metade das pessoas que se dirigiram ao local ficaram sem assitir ao espectáculo porque não havia espaço para tanta gente)
Mas o grande bastião do grupo tem sido São Vicente. Não é por acaso que a grande maioria das suas actuações a nível nacional acontecem nessa ilha. O grupo tem sabido retribuir esse carinho e é de se notar que muitas das suas estreias acontecem em Mindelo.
Em comemoração aos 24 anos (as bodas já estão prateadas) o grupo tem agendado para este fim-de-semana duas actuações em Mindelo, com a mais recente peça "Jazigos da Boca de Pistola". Mais uma oportunidade pra malta de Soncent vendê télisca à vontade.

22 Fevereiro 2008

Passagem com outra pinta

Já não era sem tempo!! (se calhar nem justificava haver tempo para tal)
A linda Passagem vai receber obras. Os canteeiros vão voltar a ter relva, as casinhas de palha vão receber nova cobertura, a piscina vai ser pintada, as árvores vão ser podadas... enfim, ao que parece esse recanto - um dos encantos de Santo Antão - vai voltar aos seus áureos tempos. Tempos áureos que, alíás, nunca deveriam ter deixado de existir, mas que por ... até me falta a palavra, pocha!
As obras estão prestes a começar, graças a uma parceria entre um investidor irlandês e a Câmara Municipla do Paúl. Espero que daqui há alguns meses o cenário que aqui denunciámos já esteja a fazer parte do passado. Hah, e que não venhamos a ser impedidos de lá entrar (dtcha'm vrá ess boca pralá, isso tal Deus non permite)
De todo o modo, preferia que não houvesse motivos para estes remendos. Mas, enfim... é cina de criol, tchá cabá tud primer pa dpôs bem rmediá, ainda com direito a inscrições para a posteridade (tipo aquela que está la na rampa de Poeta, ASA!) Hehehe, ja'm mandá um boca!!!

20 Fevereiro 2008

O correspondente

clicar na imagem para ver melhor

18 Fevereiro 2008

Uma semana de Santo Antão na Praia (eco de um post no Djaroz)

Há dias o Djoy Amado surgiu com uma ideia interessante, tendo-a expressado aqui no seu blog. Gostei da ideia e pus-me a pensar.

Desde que estou na Praia conheci muita gente, vinda de todos os cantos, descobri outros costumes, outras realidades, mas, acima de tudo, comecei a conviver com pessoas de todas as ilhas. É aqui que reside o meu maior encanto por esta cidade.

Na Praia, pude conviver (e convivo) com pessoas oriundas de todas as ilhas de Cabo Verde, algo muito difícil de conseguir se se estiver numa outra ilha.

Uma cidade tão cosmopolita como a Praia deveria aproveitar muito mais desta condição e ser uma autêntica caldeira a efervescer manifestações culturais de todos os gostos, com criatividade a emanar dos poros de cada residente.

A ideia lançada pelo Djoy de ter um mês de cada ilha, nesta cidade é de facto muito bem vinda. Por mim, já bastava uma semana.

O Sinta10, de antena virada para Santo Antão, propõe aqui a semana da sua ilha na Praia:
Musica, dança, gastronomia, récitas, teatro, exposições, enfim um pouco de tudo made in Santo Antão, para não só dar a conhecer um pouco mais da ilha, como também proporcionar aos filhos e aos demais residente uma oportunidade de se sentirem dentro da ilha.
Imagino o Auditório Nacional lotado para assistir ao Juventude em Marcha; uma noite suave no Quintal da Música com os sons do Mix Cutura; o Centro cultural Francês a expôr a arte de Bento d’Oliveira, ou dos irmãos Levi; os Cordas do Sol a cantar linga de Sintonton numa rua do Plateau; um grupo qualquer das Fontainhas ou Figueiras ta ratchá uma contradança ou uma masurca; Leão Lopes a liderar uma conferência tipo “pensar Santo Antão; Paulino dias no Palácio da Cultura a contar as estórias de Fajâ Domingas Bentas; uma exposição/venda de doces, licores, pontche, queijos e outros produtos da ilha na Biblioteca Nacional, enfim…
Como seria bonito uma semana de cada ilha na Praia.

Sinta10 já fazê sê proposta, que venham mais 10!

11 Fevereiro 2008

Carnaval da Ponta do Sol

Em Santo Antão também há carnaval. A vila da Ponta do Sol ê bom nel, e já houve dias melhores, quando o carnaval da vila competia com o da Penha de França, vila da Ribeira Grande. Era sempre renhida a disputa entre Maravilhas do Oceano e Sol Real.

Este ano também houve desfile, houve muita animação, muita festa na antiga Maria Pia. Mas apenas animação!

Bem, na ilha as cinzas não celebramos, o dia passa quase que despercebido, assim como noutras ilhas de Barlavento, que pena! Porque será?
E nós, por cá fomos ao interior de Santiago, saltitámos de casa em casa e regressámos à cidade de barriguinha a luzir.
Nesta foto, "Oriundos do Universo", um grupo criado este ano, recorda o passado áureo do carnaval na Ponta do Sol

10 Fevereiro 2008

Flagelados do Vento Norte (ou será ventos do carnaval solpontense?)

Há duas semanas lia no Expresso das Ilhas uma notícia segundo a qual os presos da cadeia da Ponta do Sol estariam na iminência de passar fome, devido a falta de alimentos naquele estabelecimento prisional.
Ao deparar com os factos(?)pensei para comigo: isto é verdade, ou será uma piada de carnaval, já que a época é propícia para certas pirraças? Sim, porque, ao menos, se fosse greve de fome, teria dito que de certa forma já estamos acostumados com presos a injutir pitéu para reivindicar isto ou aquilo. Agora,faltar comida nas cadeias!!!, ainda por cima numa cadeia regional,com as dimensões da de Ponta do Sol?
Nisto, lembrei-me de um amigo busód da Ponta do Sol que há dias me contava, meio a sério, meio a brincar, que os presos dessa cadeia vivem sab pa fronta; que saem de manhã para ganharem o seu dia e voltam à tardinha; que organizam jogatinas com os habitantes da vila, etc., etc.
Hoje, ao comentar a notícia com um colega, este rematou: "talvez esses presos comam em casa pelo que a cadeia não deve estar preocupada em providenciar alimentação aos seus inquilinos"
Bem, brincadeiras à parte, a acreditar no Expresso da ilhas, a coisa é grave, grave mesmo! Créd n'emstêr!

28 Janeiro 2008


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27 Janeiro 2008

MEMÓRIAS (histórias de Praia Formosa)

Cresci ouvindo hitórias sobre o naufrágio do "John", um navio americano que na década de 40 naufragara nas costas da ilha de Santo Antão, carregado de milho. O tempo era de crise, a fome grassava a ilha e a população morria a míngua. O naufrágio terá sido então um mal que veio por bem, porquanto a população, de todos os cantos da ilha, forjou uma famigerada romaria ao local, em busca de gãos de milho para "encher o papo"

As histórias são muitas... lembro-me daquelas de Nha Zidora, a causar-nos comoção e espanto. Ela que na altura acompanhara a mãe, era ainda adolescente (passaram 3 ou 4 dias a andar a pé, por entre desertos e sol ardente), até chegar ao local.
A propósito deste sucedido, deambulava pela Internet e fui desembocar neste artigo. É interessante ler este peculiar olhar sobre uma (negra e pouco conhecida) página da nossa história.
Uma homenagem a Nha Zidora, que tanto povoou o imaginário da minha infância com contos e lendas (su)REAIS sobre a ilha. Quando lá voltar espero encontrá-la ainda com forças e memória para recontar aquelas sobre São Tomé e Príncipe, para onde chegou a ir como contratada.

19 Janeiro 2008

O drama da chuva e a ilusão de óptica

2007 foi mais um ano em que não choveu na ilha. Mete dó a reportagem do jornalista João Almeida Medina sobre a situação dos criadores de gado no concelho do Porto Novo, publicada na edição nº 825 do A Semana, de 30 de Novembro.
Mas, esta contou-me o meu irmão e não me contive em risos:

Dizia-me que há alguns anos um jovem das Figueiras – uma das localidades mais encravadas do concelho da Ribeira Grande - lhe contara das dificuldades que ele e sua família tiveram que enfrentar em mais um ano de seca na ilha. A chuva não veio, os campos permaneciam ressequidos e o pouco pasto que ainda se podia encontrar estava tão tostado que as cabras negavam a comê-lo. Por mais que as alimárias tivessem fome não se mostravam dispostas a meter a focinheira no pasto, isto num claro desafio à máxima local segundo a qual “burro que tem fome ta cmê até córd”
Todo aquele que, na localidade, tivesse uma cabrinha estava desanimado porque nenhuma das criaturas dava sinais de querer suspender a “greve de fome”. Nem um pingo de leite para enganar o café preto as famílias conseguiam, já que as cabras, outrora leiteiras, estavam moribundas. Então, desesperado, que resolve fazer um dos moradores?
Arranja um punhado de garrafas verdes (daquelas que trazem vinho Tinto), corta-as em forma circular e com ares de arame fabrica alguns pares de óculos, bem especiais. Colocou um par nos olhos de cada cabra e não é que os bichos começam a devorar o pasto? Pois é, as cabras, coitadas, levadas pela ilusão de óptica, pensavam que a palha estava verde e devoravam tudo que lhes aparecessem pela frente. A partir daí começaram a restabelecer as parcas forças e até ressurgiu aquele pinguinho de leite para enganar o café.
Afinal, as cabras não só nos ensinaram a comer pedras como também nos obrigaram a fabricar óculos… especiais.

Pois, é o hábito tipicamente crioulo de brincar com a própria desgraça.

12 Janeiro 2008

As "alminhas de porra"

São, seguramente, a espécie de ave mais pequena que existe em Cabo Verde. Acarinhado por uns, amaldiçoado por outros, os pardais (alminhas de porra como lhes chamaram os Cordas do sol) sempre fizeram parte da vivência do homem rural cabo-verdiano. Dzusperóds que nem “menino nascido na fraqueza de lua” como dizia Baltasar Lopes em Chiquinho, os pardais formam bandos e ficam a esvoaçar de propriedade em propriedade a cata de alimentos. Frutos, legumes, ervas, larvas, pequenos insectos, flores... tudo lhes serve de petisco.
E é precisamente por causa da sua manhenteza que as vezes são uma autêntica dor de cabeça para os camponeses. Que o diga os agricultores do interior do Porto Novo que, neste momento, conforme o A Semana, estão a travar uma luta contra estas criaturas. É que os pardais estão a dizimar as colheitas de tomate e cenoura, deixando os agricultores de cabelos em pé.
Lembro-me de quando erámos obrigado a levantar bem cedo e ir às meradas guardar os pardais para que não destruíssem as plantações de milho, no momento em que estivessem a despontar do solo os primeiros raminhos. Era uma tarefa muito chata, primeiro porque tínhamos que antecipar o amanhecer, depois porque tínhamos que ser bem ágeis com as nossas fundas para poder acompanhar as constantes inversões de marcha dos bichinhos. Mas isso era apenas uma vez por ano, quando as sementes de milho estivessem a germinar, entre Julho e Agosto. O que acontecia o tempo todo era as assadas de pardais, que montávamos depois de os caçar nas sorças feitas com latas de atum e laçadas de linha de nervo.
Era um prazer dar nos dentes as canelinhas de kitch dos bichinhos e depois exclamar: “bsot ê dzesperod ma nos é que te cme bsot".
Enfim, coisas de menino… da ilha

Pardais te cmê girasol no jardin da minha mãe
Fotos: BCN

10 Janeiro 2008

O combate à PDM

Aleluia, aleluia! O suspiro deve ter saído em uníssono e ecoado por todas as ribeiras, ladeiras seladas e cabeços da ilha. Os agricultores de Santo Antão vão poder, finalmente, comercializar seus produtos nas ilhas do Sal e Boa Vista, pondo fim a mais de vinte anos de quarentena por causa dos malditinhos milpés. Ahh, malditinhos não, são malditões! Imaginem, então, um bicho que resistiu mais de duas décadas à tudo e todos! Nem governos, nem governantes, nem presidentes, enfim nenhuma autoridade pôde, ao longo de todo esse tempo, arranjar forma de dominar o pirralho para assim poder levantar o embargo. Nem as antigas Milícias, nem as FARP, nem a POP e nem a PN conseguiu, ao longo de todos esses anos, barrar a passagem desses bichinhos na fronteira? Que força, hein!

Agora que somos PDM vamos, finalmente, conseguir criar um centro de expurgo para a PDM. Não se assuste, este 2º PDM refere-se à Praga Dos Milpés.

05 Janeiro 2008

Mar de canal

Terminou as curtas férias de Natal e fim-de-ano na ilha. Como é doloroso o momento em que se entra no hiace para galgar as colinas rumo a Porto Novo - a agora única porta da ilha (porta por onde diariamente saem e entram centenas de pessoas)!

No dia 2 de Janeiro, ao ver as três embarcações que todos os dias fazem a ligação Santo Antão - São Vicente a se aproximarem, como que em fila indiana, do cais do Porto Novo, pus-me a pensar: - e se houvesse uma ponte a ligar as duas ilhas? Afinal, alguns dos desejos do António Ludjero Correia para Cabo Verde não são tão utópicos quanto possam parecer.
Só mesmo vendo a "ruanata" diária desses navios no canal, se pode ter a real consciência do quão importante seria tal ponte.

Afinal, como diz A. L. Correia "sonhar é preciso"

06 Dezembro 2007

Paul, Casa do Escritor e... Oriente

O vale do Paul é tido como um dos lugares mais belos de Cabo Verde. Pela sua orografia, pela exuberância da sua vegetação... penso que se justifica em pleno este rótulo.
Paúl esconde encantos, belezas, um potencial turístico enorme. Paul tem história, tem (agri)cultura...Paul encanta, por isso muitos que por lá passam, cantam-no.
E não será, certamente, por acaso que o "berço de Januário" poderá vir a albergar a Casa do Escritor. A ideia já foi lançada e, aos seus promotores - Vera Duarte, e AMIPAUL - Sinta10 levanta um aplauso
e aproveita para propor uma viagem diferente ao concelho.


O Oriente no Paul

Ao reparar nesta foto me veio à memória a Grande Muralha da China. É certo que por esse caminho não chego a nenhuma muralha. Antes, esta vereda, que até parece transportar-nos para o além, leva-nos até algures em Santa Isabel, no concelho do Paul.
Não sei porquê, mas não consigo deixar de associar esta imagem à majestosa Grande Muralha. Salvaguardando, claro, as proporções.

E, já agora...

que dizer deste exemplo de interculturalidade?

O autor da 1ª fotografia é a personagem que agora aparece nesta 2ª. De nacionalidade chinesa, Kayo esteve em missão no Paul durante cerca de 5 meses, ao serviço do Corpo da Paz. Mas não vou falar dela. Falo da foto, da riqueza expressiva que a mesma encerra.

A cobertura da casa, as paredes em pedra seca, a porta e a sua fechadura, a escada de pau e o sôrron faz-nos mergulhar num Santo Antão profundo. Ainda, num primeiro olhar este mergulho no profundo poderá ser bruscamente interrompido pelo “elemento estranho” – o chinês. Mas, um olhar mais demorado desvenda, em vez de um “ruído”, um exemplo de perfeita comunhão de povos, de integração onde eu te dou e tu me dás. Os chinelos que aparecem em cima da escada são um produto chinês, trazido pelos comerciantes. O nativo comprou-os usa-os no dia-a-dia. De tanto utilizá-los, teve que aplicá-los alguns pontos para aumentar a sua durabilidade. E é provável que tenha usado linha de cisal preparada a partir da planta que cresce nos cumes das montanhas da ilha.
Já, o sorron nas costas da chinesa é bem nosso. Só não sei se nessas costas o mesmo terá seguido viagem até ao oriente. Quem sabe!?

14 Novembro 2007

PASSAGEM: SOS na primeira pessoa

"Chamo-me Passagem, sei que sou um ponto de passagem obrigatória para aqueles que visitam Santo Antão. Tenho piscina de água doce, águas cristalinas que correm por entre inhames e hortelãs, enfim tenho uma paisagem que, modéstia à parte, é espectacular.
Ao longo da minha vida já recebi centenas e mais centenas de caravanas que vêm passar um dia diferente, contemplando meus encantos. Já deixei maravilhado milhares de pessoas, locais e forasteiros.
Mas estou revoltado: é que já estive bem melhor. A minha piscina, meu ex libris, está feinha, meus canteiros já não têm ervas verdejantes. Porque será que estão e destratar-me desta forma, eu que já servi tanta gente, sem olhar a quem!!!"

Don't forget me, please! I'm (was) so nice!